Dentro do balneário

Paulo Futre
Paulo Futre

Que vergonha!

Na semana passada, vi a notícia de que o vídeo-árbitro chega à liga espanhola na próxima temporada e disse para mim "Portugal foi o pioneiro a anunciar o VAR e finalmente Espanha copiou-nos em algo!" Mas, ao mesmo tempo, também pensei: "Será que os espanhóis estão atentos ao que passa atualmente no futebol português? E vão também copiar o nosso último grande ‘invento’, que são os diretores de comunicação? Será na próxima época em Espanha se falará mais dos diretores de comunicação do Barcelona, Real Madrid e Atlético de Madrid, que de Cristiano, Messi e Griezmann?"

É muito difícil que os grandes protagonistas do futebol espanhol sejam os diretores de comunicação, como acontece hoje em Portugal, mas temos que tentar tudo para exportar esta obra de arte maravilhosa para o país vizinho. Porque, como se costuma dizer, "No futebol tudo é possível".

Vamos pelo caminho certo, sem dúvida, mas ainda estamos muito longe do nível que havia em Espanha nos anos 80 e 90. Eu estava lá e estas frases do meu presidente Jesús Gil y Gil sobre os árbitros têm de ser a vossa grande referência a partir de agora. "Estamos a pagar aos nossos carrascos, os árbitros" (1993); "Os árbitros não são ninguém e têm de desaparecer" (1990); "Não me surpreendeu nada a sua arbitragem, mais do que uma mariazinha, ele é um maricas. Depois da nossa eliminação, os italianos vão dar-lhe como prenda um menino loiro de olhos azuis" (sobre o árbitro francês Michel Vautrot, que apitou o Atlético de Madrid-Fiorentina na Taça UEFA, em 1990); "Há pessoas que pelo seu físico e inteligência parecem primatas antropormorfos" (sobre o árbitro López Nieto, em 1990); "Ao presidente da federação, Ángel Villar diria que isto é uma me... e uma fraude. Se este árbitro é internacional, eu sou o bispo. Ele não pode ter a consciência tranquila. O que se passou aqui hoje foi a consolidação da vergonha nacional", (sobre o árbitro Ansuetegui Roca, em 1993); "Permitir que este árbitro apite é como dar uma pistola a um menino de cinco anos. É um vulto suspeitoso e corre como uma formiga" (sobre o árbitro Andújar Óliver); "Há máfia na arbitragem. A competição está alterada e prostituída. Roubam-te e não podes fazer nada. O presidente da Federação Ángel Villar é o chefe da máfia e um cancro para o Mundo do futebol. São uns malandros" (1995).

Entre estas declarações e muitas outras, foi suspenso durante anos. Vocês, diretores de comunicação, pelos os castigos que já levam, vão pelo mesmo caminho. Têm que se sentir orgulhosos e nada dececionados, pois a fasquia está alta. Não é fácil chegar a este nível, mas vocês começaram há pouco tempo e vão lá chegar. Não desanimem!

E quanto às claques, assim estava o futebol espanhol quando lá cheguei em 1987. Na década de 80, os jovens espanhóis importaram o movimento ‘hooligan’ inglês, e começou o tempo da violência, com as batalhas campais entre as claques radicais, muitas delas liderados por skinheads . A rivalidade que existia transformou-se em ódio, muito graças às declarações incendiárias dos máximos responsáveis do futebol espanhol e à publicidade que lhes faziam os seus presidentes. O do Real Madrid, Ramón Mendonza , foi visto em vários vídeos a festejar, gritar e saltar com a claque radical dos merengues, ‘Ultras Sur’, depois de ganharem algum jogo. Joan Gaspart, que foi durante mais de duas décadas anos vice-presidente e presidente do Barcelona, era sócio número 1 da claque radical do Barça ‘Boixos Nois’ e dizia coisas como estas: "Quando deixar de ser presidente, irei seis meses ver jogos com os Boixos Nois." Os grupos violentos estavam na moda e com aquele clima de terror a morte também esteve sempre presente. Hoje, nos estádios de Espanha, até os insultos estão proibidos, mas para chegar a este clima saudável e de paz, foi preciso morrerem 11 adeptos no país vizinho entre 1982 e 2014.

A minha ironia acaba aqui. Há poucos meses morreu um adepto em Lisboa, ninguém fez nada, e o clima de terror do futebol português continuou igual. Isto são palavras maiores. Se hoje pedirmos aos adeptos de Espanha para definir em duas palavras o futebol espanhol nas décadas de 80 e 90, de certeza que a grande maioria dirá "Que vergonha!". Se dentro de 20 ou 30 anos fizerem aos portugueses a mesma pergunta relativamente a 2017, a minha resposta e a da grande maioria dos portugueses que gostam de futebol, e que infelizmente estamos a viver este clima de terror, será "Que vergonha!".


CALDEIRADA DA SEMANA - O silêncio de CR7

epois de Cristiano Ronaldo marcar dois golos na vitória do Real Madrid, por 6-0, sobre o Apoel, a imprensa que o esperava
na zona mista ouviu das boas. "Digo uma coisa e escrevem outra, como querem que fale? Digo algo e no dia seguinte há outra coisa escrita que não falei. Como vou falar?", referiu, fazendo referência à polémica criada quando disse que o "plantel merengue tem menos experiência que o do ano passado", e Sérgio Ramos, dias depois, o acusou de oportunismo. A caldeirada rebentou nos programas desportivos e alguns jornalistas que inventam histórias tiveram de ouvir: "O CR7 não fala por tua culpa."


NÓS LÁ FORA -- Recado para Montella

Na quinta-feira, era jornada da Liga Europa e o Milan ganhou 5-1 ao Áustria Viena. O André Silva fez o seu sétimo e oitavo golos com a
camisola rossonera, todos eles na prova em causa, porque, no campeonato italiano, tem jogado muito pouco. Mas o grande protagonista do dia foi o Kaká. O brasileiro, que ganhou a Champions em 2007 pelo Milan ( e na sua equipa estavam craques como Nesta, Maldini, Gattuso, Pirlo, Seedorf,Rui Costa, Inzaghi
entre outros) , referiu-se ao jovem português: "André Silva podia jogar na minha equipa do Milan". Espero que Montella, depois de ouvir isto, atue em conformidade...


ÁLBUM DE RECORDAÇÕES -- Ufff!

empre disse, durante toda a minha carreira, que tinha muito mais prazer quando fazia uma boa jogada e o ‘passe da morte’ para o ponta-delança do que marcar um golo feio ou ‘normalito’. Quando o ‘matador’ das equipas onde joguei entrava em crise e estava vários jogos sem marcar, eu já nem golos bonitos queria fazer. A minha prioridade era ajudá-lo. Quando voltava a marcar, era o
momento do ‘Ufff’! Na quarta-feira, o Atlético ganhou à Roma, por 2-0, o Griezmann estava numa crise goleadora horrível, já não marcava há 8 jogos. Quando fez o primeiro , imaginei os ‘Ufffs’ que deviam de ter saído das bocas dos companheiros!


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