Dentro do Balneário

Paulo Futre
Paulo Futre

Sem favoritos na tortura dos penáltis

A primeira vez que rezei como nunca e pedi a todos os deuses que estivessem comigo – e com os meus companheiros de equipa – numa decisão por penáltis foi no meu primeiro ano no Atlético Madrid, em 1987, nos dezasseis avos-de-final da Taça do Rei. O rival era o Elche, que estava na segunda divisão, e nós naquela altura dividíamos a liderança do campeonato com o Real Madrid, tínhamos o moral lá em cima e seria o escândalo do ano em Espanha se fôssemos eliminados em 180 minutos por uma equipa de um escalão inferior. O primeiro jogo foi em Alicante e como ia ser fácil, muitos titulares (como era o meu caso) nem viajaram .Ouvi o relato e assim que o jogo terminou com a nossa derrota por 1-0, só disse estas duas palavras: "Grande caldinho."

O nosso treinador era o mítico Luis Cesar Menotti e pelas críticas que recebeu foi obrigado a meter a equipa titular na segunda mão. Meses antes tinha feito história ao vencer a Taça dos Campeões Europeus com o FC Porto, mas naquele momento estava no extremo oposto. Antes de entrar em campo, pensava: "Se corre mal e somos eliminados entrarei para a página mais negra da história do Atlético Madrid."

Estava no meu quinto ano como profissional, mas nunca tinha vivido o que vivi naquela fria noite de dezembro no mítico Vicente Calderón. Aos 13 minutos eles fazem 1-0 e o meu coração gelou. Não entrámos em pânico, conseguimos a reviravolta e fomos para o intervalo a ganhar 2-1 e com a eliminatória igualada (na época o golo fora não valia mais). Nos segundos 45 minutos, o massacre continuou, mas inacreditavelmente não marcámos o terceiro e no prolongamento o filme continuou igual. Quando o árbitro apitou para o final e vi os jogadores do Elche a festejar achei normal, porque depois de 210 minutos era a primeira vez que iam estar em igualdade de condições para passar a eliminatória, porque nos penáltis não há favoritos.

A mim tocou-me o segundo. Nos metros em que caminhei do meio-campo à marca tremi. As pernas nunca tinham tremido tanto dentro de um campo de futebol, com a pressão que sentia e as dúvidas que tinha sobre o lado para onde bater a bola. Até a respirar me custava. Quando agarrei o esférico para meter no círculo dos nove metros, as mãos também tremiam e o pior de tudo é que ainda não sabia se ia bater forte para o lado esquerdo do guarda-redes ou em jeito e com o interior do meu pé esquerdo para o lado direito do guardião. Finalmente optei pela a força, fiz golo, tirei um peso de cima, mas a tortura só acabou quando eles falharam o oitavo penálti e nós marcámos. Acabámos por festejar loucamente, não por passar a eliminatória, mas sim por evitarmos um escândalo e pela maravilhosa sensação de alívio que sentíamos naquele momento... mas não ganhámos para o susto. Depois desta decisão estive em outras mais importantes, como por exemplo numa eliminatória da Taça UEFA, entre o Atlético Madrid e Fiorentina, onde fomos eliminados e fui um dos que falhou, mas em todas elas nunca tremi tanto como contra o Elche.

Na minha opinião, uma decisão por penáltis, por muito que os jogadores treinem e sejam todos uns fenómenos a marcar, naquele momento de alta pressão e tensão, a baliza fica muito pequena e tudo pode acontecer, o destino decide quem ganha a lotaria.

Recordo-me desta história porque a Seleção portuguesa, no Europeu de França, nos ‘quartos’, contra a Polónia, viu a sorte estar ela e ganhámos nos penáltis. Este ano, após excelente imagem na Taça das Confederações, fomos eliminados nas ‘meias’ por penáltis. Desta vez a sorte (ou destino) esteve com o Chile. Os craques portugueses que falharam os penáltis vão ter pesadelos por vários meses, pelo que quero enviar toda a força ao Quaresma, Moutinho e Nani .

Por último, hoje, na Taça das Confederações, jogam-se os dois derradeiros jogos oficiais da época 2016/17. Voltarei em agosto, no primeiro jogo a sério, na Super taça. Como não estarei no primeiro aniversário de Portugal como campeão da Europa, só posso terminar este texto como o último do ano passado… Obrigado ao Fernando Santos e a todos os seus craques e heróis que conquistaram o Euro de França, por aquele momento de felicidade extrema que deram a todos os portugueses no histórico 10/07/2016.

Caldeirada da semana: o fantasma de Blatter

Os escândalos da FIFA de Blatter só vão parar depois do Mundial do Qatar.

Esta semana, o jornal alemão ‘Bild’ publicou trechos de um relatório redigido pelo investigador norte-americano Michael Garcia, onde são feitas revelações ‘bombásticas’, e esta é inacreditável: "A versão original dá conta de alguns episódios insólitos. O mais insólito tem a ver com o alegado pagamento de 2 milhões de dólares à ‘conta-poupança da filha de 10 anos de um membro da FIFA’".

Até 2022, o fantasma de Blatter vai estar muito presente. Quantos escândalos como estes vamos ouvir até lá?

Nós lá fora: muita força, amigo

Desde que tenho o prazer e a honra de escrever esta página, os portugueses que saíram mais nesta caixa só podiam ser os melhores do Mundo, Cristiano Ronaldo e José Mourinho. Hoje, adorava dizer que o míster Mourinho tinha ganho um jogo, título, batido algum recorde ou feito um comentário ou frase de génio, que só ele pode fazer, porque é ‘único’. Normalmente termino com palavras como estas: "Parabéns, Zé"; "Impressionante, Zé"; "O Mourinho é mesmo de outro Mundo." Mas hoje, infelizmente, a última frase é horrível. "Amigo Zé, as minhas mais sinceras condolências pelo falecimento do teu pai." Muita força, amigo.

Álbum de recordações: cinco dias em Saltilho

A derrota mais humilhante da história da Seleção foi contra Marrocos, no Mundial do México de 1986, onde bastava um empate para passarmos aos ‘oitavos’, mas perdemos e fomos eliminados. Eu estava lá, tinha sido titular e nunca me senti tão mal animicamente como depois daquele maldito jogo. E fiquei muito pior quando me disseram que tínhamos de estar em Saltilho mais 5 dias. E salvando as distâncias, porque as situações são completamente diferentes, recordei-me desta história quando Portugal perdeu com o Chile. Além da deceção pela derrota, imaginei a azia dos jogadores mais veteranos por terem de ficar mais 4 dias na Rússia para disputar os terceiro e quarto lugares.

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