Dentro do balneário

Paulo Futre
Paulo Futre

Sporting deu uma lição ao Mundo

Nos oitavos-de-final da Taça dos Campeões Europeus de 1975/76, o Derby County, que era o campeão inglês, tinha ganho ao Real Madrid, por 4-1, no jogo da primeira mão, disputado em Inglaterra. Na segunda partida, os merengues operaram a reviravolta. Venceram por 5-1 e passaram a eliminatória.

Eu tinha dez anos e lembro-me que ouvi pela primeira vez que o maior clube do Mundo era o Real Madrid, uma equipa invencível no Estádio Santiago Bernabéu. Não fiquei muito convencido, porque, para mim, os clubes portugueses eram os melhores do Planeta, pelo que, quando cheguei a casa, fiz logo a pergunta ao meu pai: "Nunca uma equipa portuguesa ganhou ao Real Madrid?"

"O Benfica ganhou-lhes 5-3, em 1962, na final de Amesterdão, e foi campeão da Europa", respondeu ele. Tranquilizei-me e perguntei de novo: "E no estádio deles, nenhuma equipa portuguesa ganhou?" "A única equipa que jogou contra eles em Madrid foi o Benfica, em 1965, e perdeu 2-1.
O Real Madrid é o melhor clube do Mundo, filho, e são praticamente invencíveis em casa", explicou-me.

Três anos depois daquela conversa com o meu pai, fiquei feliz quando soube que o FC Porto ia jogar com o Real nos oitavos-de-final da Taça dos Campeões Europeus (época 1979/80). Era a segunda vez que uma equipa portuguesa os defrontava e tinha uma fé enorme de que íamos passar a eliminatória e vencer no Bernabéu. Infelizmente não foi assim. Os dragões ganharam 2-1 no Estádio das Antas e perderam 1-0 em Madrid. Com tristeza, chorei durante várias horas.

Com o passar dos anos, os merengues continuavam intratáveis em casa e a fazer reviravoltas históricas, como, por exemplo, na temporada 1984/85, contra o Anderlecht. Os belgas ganharam 3-0 em casa, na primeira mão, e o Real Madrid venceu depois, por 6-1, no Santiago Bernabéu. No ano seguinte, a história continuou. O Borussia Mönchengladbach ganhou o primeiro jogo em casa, por 5-1, e perdeu em Madrid, por 4-0.

Era um pesadelo para qualquer equipa jogar naquele palco. O medo que sentiam no Santiago Bernabéu era indescritível. E para intimidar ainda mais os seus rivais, Juanito, um dos melhores jogadores da história do Real Madrid, proferiu esta frase lendária: "No Bernabéu, 90 minutos são muito longos."

A primeira vez que ouvi esta frase de guerra dos merengues foi da boca do seu presidente, Ramón Mendonza. A 7 de novembro de 1987, o Real Madrid recebia o Atlético Madrid e a intenção dele era intimidar os jogadores colchoneros. Mas não resultou. Era o meu primeiro dérbi madrileno no invencível Bernabéu. Se havia um estádio em que sonhava ganhar era aquele. Foi numa noite de sábado e chovia torrencialmente... e eu adorava jogar à chuva.

O jogo terminou às 23 horas e a equipa do Atlético só conseguiu sair do ‘estádio invencível’ já de madrugada e em carrinhas da polícia. A deceção, humilhação, tristeza e fúria dos adeptos do Real era tal, por terem perdido 4-0 em casa, que se abandonássemos o Bernabéu no nosso autocarro, matavam -nos à pedrada.

Era o meu primeiro ano em Espanha, já tinha feito grandes jogos, mas aquele foi o da minha consagração no futebol espanhol. Abri o livro... e de que maneira! Fiz um golo e duas assistências. Como português sentia, por outro lado, que tinha vingado as derrotas do Benfica e do FC Porto. Onze anos depois de o meu pai me dizer que o Bernabéu era invencível, tive o privilégio de lhe deixar esta frase: "Pai, esta derrota por 4-0 do Real em casa acabou para sempre com o mito de que o Bernabéu é invencível."

Recordo-me desta história porque, infelizmente, nem eu nem nenhum outro português teve o prazer de ver uma equipa portuguesa ganhar naquele Estádio mítico. Na quarta-feira, estivemos mais perto que nunca de conseguir este feito. O Sporting deu uma lição ao Mundo. Apesar da diferença abismal de orçamentos, é possível jogar de igual para igual no Estádio Santiago Bernabéu. Injustamente, os leões não trouxeram qualquer ponto de Madrid. Mas, se há derrotas que reforçam o espírito de uma equipa e que dão confiança ao grupo, são estas certamente. Hoje, o plantel do Sporting sabe que tem valor para ganhar a qualquer rival.

Sonho agora com um Sporting-Real Madrid nos quartos-de-final desta edição da Champions League. Esta equipa de Jorge Jesus pode mesmo ganhar no Bernabéu.


Caldeirada da semana -- O conselho de Scholes

Quando uma equipa tão poderosa como o Manchester United perde dois jogos consecutivos, como aconteceu esta semana, a crítica, a polémica e a ‘caldeirada’ chegam obrigatoriamente. Nos últimos dias, depois da derrota de quinta-feira para a Liga Europa, o alvo principal de todas estas críticas, e muitas delas destrutivas, tem sido o homem que custou 110 milhões de euros. Mas houve uma crítica dura, mas também construtiva, feita pelo mítico jogador Paul Scholes. "Pogba está exagerando nas fintas, quando, numa primeira fase, deveria jogar simples e não tentar imitar... Lionel Messi." Mais do que uma crítica, este é um conselho importante para o francês.

Nós lá fora -- Hugo Almeida

O internacional português teve uma estreia de sonho pelo AEK de Atenas, diante do Xanthi. Fez dois golos e foi considerado o melhor jogador em campo. Depois das várias lesões com que se debateu nestes dois últimos anos, o grande Hugo Almeida voltou a sorrir e está de volta. Esta é a décima primeira temporada dele a jogar fora de Portugal e nunca é fácil estar tanto tempo afastado da família e amigos. É um grande ponta-de-lança.
Parabéns, campeão!

Álbum de recordações -- Um ano de loucura

Os dois anos e meio que tive no futebol italiano foram um pesadelo. Fui operado três vezes ao joelho direito e passei mais tempo em hospitais e no posto médico, a fazer recuperação, do que no campo. Na brincadeira sempre digo que toquei mais vezes nas muletas do que na bola. Mas, em Itália, também passei dois dos dias mais felizes da minha carreira. O primeiro foi quando assinei pelo gigante AC Milan e o segundo quando ganhei o scudetto com a camisola rossonera. Tinha uma pequena esperança de que esta época voltaríamos a ver o verdadeiro AC Milan. Agora, não sei. Veio o pessimismo depois da derrota com a Udinese e o otimismo após a vitória frente à Sampdoria. Enfim, será um ano de loucura para este AC Milan...



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