Dentro do balneário

Paulo Futre
Paulo Futre

Tem calma, Thiago Silva

A 6 de novembro de 2000, comecei a trabalhar oficialmente como diretor-desportivo do Atlético Madrid, estava o clube na 2ª divisão e a viver o pior momento da sua história.

Um dia antes, tínhamos perdido com o Tenerife, por 3-1. Se o campeonato acabasse naquele dia, o Atlético estava na 2.ª B. O jogo acabou às 13h45. Fora do estádio, milhares de adeptos estavam à espera do presidente Jesus Gil y Gil. Queriam a sua cabeça. Se ele tivesse saído do estádio naquele momento, provavelmente teria acontecido uma tragédia.

Gil y Gil ficou arrasado. Subimos para o escritório dele, enquanto ouvíamos os gritos dos adeptos na parte de fora do estádio. Através da televisão, acompanhámos as reportagens sobre os incidentes . Polícia de choque, confrontos, violência, contestação. Os adeptos queriam-no fora do clube naquele mesmo dia.

Só saímos do estádio por volta das duas da manhã, quando tudo finalmente acalmou. Nunca o abandonei. Estive sempre ao lado dele. Mas, ao mesmo tempo, pensava em mim e na minha família. Se eu falhasse, teríamos de sair de Espanha para nunca mais voltar.

Aos 34 anos, tinha pela frente um dos maiores desafios da minha vida. Além de todos os problemas, o clube estava sob iintervenção judicial, o que impedia a contratação de jogadores. Era tudo controlado ao milímetro.

Fui reforçando a equipa como era possível. Tinha sempre de vender jogadores para poder comprar outros, por forma a que as finanças do clube estivessem equilibradas. O plantel 2000/01 ainda tinha muitos ex-colegas da altura (1997/98) em que eu era jogador do Atlético Madrid. O meu maior pesadelo era ter de dizer-lhes, a determinada altura, que já não podiam continuar na equipa. Com alguns, por causa disso, houve mesmo corte de relações e só voltámos a falar vários anos depois.

Recordo-me desta história por causa de tudo o que se esta a passar com Antero Henrique no Paris Saint-Germain. Há umas semanas, foi o presidente do Bayern, Uli Houness, a lançar-lhe criticas severas, depois de alguns negócios falhados entre os dois clubes: "Este homem não pode ser a figura de proa do clube. Se o PSG quiser ser um grande clube a nível mundial, não se pode dar ao luxo de ter tal diretor-desportivo. Aconselho o PSG a demiti-lo", afirmou o presidente do Bayern Munique em entrevista à revista ‘Kicker’.

Em termos públicos, nunca um dirigente de outro clube disse tal coisa sobre mim, mas isso chegou a acontecer várias vezes em privado quando os negócios não se materializavam. É uma reação natural de quem quer defender o seu clube.

Muito pior foi o que disse Thiago Silva, capitão dos franceses, esta semana, depois da derrota em Liverpool (3-2). Sem Marco Verratti, que cumpria um jogo de castigo, o treinador do PSG optou por colocar a meio-campo Adrien Rabiot, Marquinhos e Di María, mas a solução não convenceu e, no final do jogo, Thiago Silva foi questionado sobre o tema. "No meio-campo, os três jogadores não estavam a jogar na sua posição? Tem de perguntar ao Antero Henrique", afirmou o capitão do PSG ao jornalista do ‘L’equipe’

Fiquei estupefacto. O pior inimigo de Antero pensaria duas vezes antes de arrasá-lo publicamente. Mas convém recordar a Thiago Silva que foi já Antero Henrique a fazer as duas maiores contratações da história do PSG: Neymar e Mbappé. Se eu fosse Antero Henrique sei bem o que teria respondido a Thiago Silva quando ficasse sozinho com ele: "Rapaz, não sabes que temos de cumprir o fair play financeiro?!"

Thiago Silva é um grande jogador e poderia estar frustrado pela derrota, mas devia perceber que os diretores-desportivos, por uma ou outra razão, nem sempre podem contratar todos os jogadores que querem e o PSG tem craques em todos os sectores. Uma equipa de luxo. E muitos deles já foram negociados por Antero. É um homem com um currículo invejável, que fez grandes contratações, quer no FC Porto, quer no próprio PSG. E se não fez mais, foi porque não era possível. Da mesma forma que, em campo, damos tudo e por vezes nãoconseguimos vencer , como aconteceu com os franceses frente ao Liverpool, o mesmo também pode acontecer na mesa da negociações. Percebes, Thiago?


CALDEIRADA DA SEMANA -- Brych é uma vergonha

Meio mundo estava com os olhos postos no jogo entre o Valencia e a Juventus. A expectativa era enorme para ver CR7 na Champions com a sua nova equipa. Mas, ao minuto 28, aconteceu algo surreal. O Cristiano foi expulso porquê!? O que fez ele para levar o vermelho direto!? Hoje, e até ao último dia da sua vida, o árbitro Felix Brych vai, por certo, dizer: "em 154 partidas de Champions, o melhor jogador do Mundo nunca tinha sido expulso. Eu fui o único que expulsei o Cristiano Ronaldo!" De certeza que hoje é um herói para a sua família, mas, para muitos, onde eu me incluo, o Felix Brych é o árbitro da vergonha!


NÓS LÀ FORA -- Renato sai do buraco

Renato Sanches, em novembro de 2015, nem sabia o que era a pressão de jogar ao mais alto nível... Dez meses depois, tinha meio planeta a olhar para ele, fruto das exibições pelo Benfica, da titularidade na Seleção campeã da Europa e da contratação pelo Bayern Munique. Como nenhum professor pode ensinar o que se deve fazer nos momentos realmente difíceis que depois surgem, tens de sair sozinho do buraco. Falo por experiência própria. O Renato estava há mais de um ano dentro deste buraco horrível, mas, na quarta-feira, conseguiu meter a cabeça de fora, com um jogo de grande nível frente ao Benfica.

ÁLBUM DE RECORDAÇÔES -- Cinco jogos de sonho

Recordo-me apenas de dois dos cinco primeiros jogos que fiz pelo Sporting, aos 17 anos. No primeiro, com o Penafiel em Alvalade, entrei na 2.ª parte, com 0-0, e estive em grande nível. Acabámos por golear. Com o Boavista, também em casa, fiz a primeira assistêncial. Também não me recordo do que fizeram Cristiano Ronaldo, Figo entre outros craques nos seus cinco primeiros jogos nos seniores, mas, quase de certeza, que não foram tão decisivos nas vitórias como Jovane. O jovem leão, que já tinha sido fundamental nos quatro jogos anteriores, com golos, assistências e penáltis ganhos, apontou, frente ao Qarabag, o segundo golo leonino, logo no primeiro minuto em campo. Cinco jogos de sonho. Impressionante, menino...


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