Totti, uma lenda viva
Antes do Mundial de 1982, disputado em Espanha, eu e todos os meus amigos de infância estávamos preparados para torcer pelo Brasil. Só que, durante a competição, apaixonei-me pelo futebol genial de Bruno Conti e ele começou a ser um dos meus ídolos.
Como era italiano, comecei a torcer também pela sua seleção. Recordo-me que no mítico jogo em que os transalpinos venceram, por 3-2, o Brasil, com três golos de Paolo Rossi, eu estava contra todos os meus amigos, pois queria que a Itália ganhasse a partida e fosse campeã do Mundo, como assim aconteceu. O Bruno Conti, que representava a Roma, foi, aliás, um dos grandes protagonistas desse Mundial.
Naquela altura, eu tinha 16 anos e nasceu em mim outro sonho de adolescente, que era jogar na Roma. Sete ou oito anos depois, estive quase a cumprir esse sonho. No meu segundo ou terceiro ano como jogador do Atlético de Madrid, a Roma interessou-se pela minha contratação, só que o meu presidente, Jesús Gil y Gil, dizia que eu era intransferível e recusava reunir-se com quem quer que fosse. Argumentava que era uma perda de tempo.
Eu estava entusiasmado com o interesse dos romanos e tinha de fazer tudo para tentar desbloquear aquele impasse entre ambos os clubes. Talvez fosse a última oportunidade para cumprir o meu sonho e... aconteceu-me algo surreal.
Marquei uma reunião com Flora Viola (o então presidente do clube italiano). Recebi-o na minha casa para podermos falar à vontade sobre a possível transferência, longe de olhares indiscretos. Tudo isto tinha de ser feito em segredo porque alguma imprensa já andava desconfiada e eu não queria ter problemas com o Atlético de Madrid.
Pensava que a estratégia era perfeita. Mas enganei-me... e de que maneira! Tinha o inimigo ao lado e não sabia. Os meus vizinhos deixaram os jornalistas da ‘Marca’ entrar na sua casa para poderem tirar fotografias ao meu jardim, onde eu estava reunido com o presidente da Roma. No dia seguinte, estávamos ambos na primeira página do jornal. Inacreditável! Um escândalo mundial!
Fiquei com tanta raiva que mudei de casa poucos meses depois. Cheguei a pensar que essas pessoas tinham recebido dinheiro da ‘Marca’ para deixarem os jornalistas entrar. Mas não! Anos mais tarde, Joaquim Maroto, o jornalista espanhol que assinou essa peça, disse-me que nem precisou de lhes dar dinheiro. Os meus vizinhos eram fanáticos do Real Madrid. Odiavam-me e tudo fariam para me prejudicar.
E conseguiram. Tive problemas com Jesús Gil y Gil e, especialmente, com os adeptos do Atlético de Madrid. Foi uma das vezes em que tive de pedir desculpa publicamente e o sonho morreu ali. Aquela ocasião foi a primeira mas também a última oportunidade de poder vestir a camisola da Roma e concretizar a minha ambição de adolescente.
Mais tarde joguei noutro gigante italiano, como é o AC Milan, mas sempre com o olho na Roma. Depois de me retirar, passei a seguir atentamente o clube e os seus grandes craques. O último deles, sem dúvida, é o Francesco Totti. De vez em quando, vou ao YouTube e observo os melhores momentos dos jogadores que admiro. Um deles é ‘Il Capitano’.
Recordo-me desta história pelo momento incrível que aconteceu no Estádio Santiago Bernabéu, na terça-feira, em jogo da segunda mão dos ‘oitavos’ da Champions entre Real Madrid e a Roma. Os adeptos do Real muitas vezes têm atitudes que não estão à altura da dimensão do clube, mas, num bom dia, podem deixar qualquer adepto rival, inclusive algum do eterno rival Atlético de Madrid, como é o meu caso, arrepiado pela emoção.
Os aplausos incríveis a Totti, quando este entrou em campo, foram algo de verdadeiramente emocionante. Simbolizaram o reconhecimento da grande carreira que ele teve. Ser homenageado daquela maneira e naquele estádio sem nunca ter vestido a camisola do Real, só é possível a grandes craques como Totti. Com 39 anos, irá retirar-se em breve, o que será um dia horrível para todos os romanos. Ele é um mito e uma lenda viva. Estará sempre no YouTube para que nós, amantes do futebol, nos possamos deliciar eternamente com as genialidades de ‘Il Capitano’!
Caldeirada da semana -- Roselyne Bachelot
A ex-ministra francesa do Desporto, Roselyne Bachelot, acusou, na terça-feira, o espanhol Rafael Nadal de se ter dopado e de ser essa a razão para a paragem do tenista, durante sete meses, em 2012, quando este alegou estar lesionado. A ex-ministra do governo de Nicolas Sarkozy mostrou-se ainda convicta de que as lesões prolongadas no ténis funcionam apenas como desculpa para controlos positivos. Não consigo entender como uma pessoa com tanta responsabilidade mancha o nome de um campeão, com 14 títulos no Grand Slam, sem qualquer prova. A classe política, uma vez mais, vai ficar pessimamente na fotografia.
Nós lá fora -- Benfica
Quero dar os parabéns ao Rui Vitória, aos seus craques e a todo o mundo benfiquista pela passagem aos quartos de final da melhor competição de clubes do Mundo. Estar entre as oito melhores equipas da Europa é excelente, tanto para o clube como para o futebol português. Com a vitória na Rússia, frente ao Zenit, em 2017/18 Portugal colocará diretamente duas equipas na Champions League. Vamos ver se o Benfica tem aquela pontinha de sorte e evita os três tubarões, Real Madrid, Barcelona e o Bayern Munique. Com todas as outras equipas, o Benfica pode bater-se olhos nos olhos.
Álbum de recordações -- Bryan Ruiz
"Até eu marcava isto." Esta foi a frase que se disse mais em Portugal segundos depois de o costa-riquense falhar o golo do empate, a dois metros da linha de golo, sem ninguém na baliza, no dérbi lisboeta. Como deixei de jogar há muito tempo, no segundo seguinte ao falhanço, esqueci-me de que tinha sido profissional de futebol e tive atitude idêntica. Mas depois lembrei-me que também tinha falhado golos feitos. Alguns revelaram-se um verdadeiro trauma, como por exemplo o que desperdicei com a camisola do Benfica, no Bessa, contra o Boavista. Fintei o guarda-redes e sem ninguém na baliza rematei a bola fora. Só falha quem está lá dentro!
