Uma grande mágoa
Se houve um jogo que me marcou profundamente na minha infância, e que me ajudou a amar este desporto maravilhoso que é o futebol, foi, sem dúvida alguma, a final do Campeonato do Mundo na Alemanha, em 1974. Tinha oito anos e não esqueço o primeiro minuto da partida entre germânicos e holandeses. Antes de escrever estas linhas, fui uma vez mais ao Youtube ver as imagens desses 60 segundos e digo sempre a mesma frase: "que espetáculo!"
Quando a bola chega aos pés do Johan Cruyff, na meia-lua do meio-campo alemão, e arranca para cima dos defesas com aquela elegância, técnica e mudança de velocidade, que só ele tinha, e entra depois na área , sofrendo o penálti... Só um génio pode fazer aquela jogada, num momento tão importante como uma final de um Mundial. Foi incrível!
Na quinta-feira, quase 42 anos depois daquele momento mítico, o dia foi horrível, de grande tristeza para todos os amantes do desporto-rei. O Johan Cruyff, um dos melhores jogadores e treinadores da história do futebol, faleceu aos 68 anos.
Uma das minhas grandes mágoas como profissional de futebol foi nunca ter sido treinado por ele e, durante estes últimos dias, fui ao Google confrontar-me com factos que, várias décadas depois, ainda me doem. O jornalista espanhol Paco Aguilar escreveu há alguns anos, na ‘Spherasports’, estas palavras: "Muito se falou do primeiro contrato de Lionel Messi com o Barça, assinado num guardanapo. Mas pouca gente sabe que, muitos anos antes, se assinou outro com Paulo Futre, em Viena. Aconteceu por ocasião da final da Taça dos Campeões Europeus, que o FC Porto ganhou ao Bayern, em 1987, no velho Prater Stadion, o jogo do famoso golo de calcanhar de Rabah Madjer."
A reunião teria acontecido numa popular cervejaria, no centro de Viena, depois da final. Na mesa estavam o presidente do Barça, Josep Lluís Núñez, e do FC Porto, Jorge Nuno Pinto da Costa. Também estavam o gerente do clube, Antón Parera, e o secretário geral da Real Federación Española de Fútbol, Agustín Domínguez.
O Paco Aguilar quase acertou. Essa reunião aconteceu mesmo, mas não naquele dia. Foi poucos dias depois, no Porto, sem os presidentes, e assinei um papel que só seria válido se chegassem a acordo com o FC Porto. A transferência não se concretizou, mas não fiquei chateado... Um ano depois, a conversa foi outra.
O Johan Cruyff foi contratado para ser treinador do FC Barcelona, no dia 4 de maio de 1988, e durante as negociações pediu vários jogadores, tendo sido eu o primeiro entre os estrangeiros. Dias depois de ele ter assinado, o presidente do Atlético de Madrid fez estas declarações: "Estou na absoluta ruína, mas o Futre não está à venda. É a bandeira do Atlético e não se toca nele." O jornalista do jornal ‘ABC’, Jose Manuel Cuellar, disse depois: "a oferta de 1.800 milhões de pesetas que o Barcelona realizou por Futre ao Atlético de Madrid fez pestanejar Gil y Gil, mas só isto. O presidente rojiblanco reconhece que economicamente está na ruína, mas que, apesar de tudo, não vai vender Paulo Futre."
Recordo-me de que pressionei o presidente, porque era um grande negócio para o Atlético e sabia que podia não ter outra oportunidade para trabalhar com aquele autêntico fenómeno que era Johan Cruyff. Não consegui convencê-lo e esta é uma mágoa que me acompanhará até ao último dia da minha vida...
Johan Cruyff foi um mito como jogador e treinador e a sua obra estará sempre presente. Desde estas linhas quero apresentar os meus mais sentidos pêsames à família desta autêntica lenda.
Caldeirada da semana -- James Rodríguez
O Real Madrid está a realizar um campeonato horrível e um dos jogadores merengues mais criticado pela imprensa, e assobiado no Bernabéu pelos os seus próprios adeptos, é sem dúvida o James. O colombiano parece, muitas vezes, que é o único culpado dos maus resultados da equipa. Está a percorrer um calvário e já ouviu de tudo. O mais absurdo era que estava gordo. Mas um autêntico craque, como é o James, tem de falar dentro do campo para começar a calar críticos. E já começou, com o golo que fez, na quinta-feira, pela sua seleção contra a Bolívia. Esta é a primeira bofetada sem mão a todos aqueles que o criticam cruelmente.
Nós lá fora -- Seleção
Depois de qualquer derrota da Seleção, mesmo que o jogo seja particular, o nosso selecionador e os jogadores são sempre criticados. E, como não podia ser de outra maneira, depois do desaire contra a Bulgária, a Seleção foi criticada em Portugal... e ainda mais no estrangeiro. Para alguns jornalistas, nós não temos nada a fazer no Euro’2016 e até estamos proibidos de sonhar em sermos campeões da Europa. A todos eles digo que foi um jogo particular e que, se tenho o melhor jogador do Mundo na minha equipa, posso sempre sonhar em ganhar qualquer prova. Se o Cristiano estiver no seu melhor nível em França, por que não poderemos ser campeões da Europa?
Álbum de recordações -- Primeira internacionalização
Todos os miúdos portugueses que gostam de jogar futebol têm três grandes sonhos: o primeiro é serem profissionais, o segundo jogarem num dos três grandes de Portugal (se for o clube do coração, melhor) e, por fim, serem internacionais A. Quando consegues cumprir estes três sonhos, aos 18 anos, há uma sensação máxima de felicidade. Frente à Bulgária, o Renato Sanches viveu este momento maravilhoso, que nunca mais esquecerá. Quando um miúdo se estreia tão jovem com a camisola das quinas, tenho de pensar obrigatoriamente no dia da minha estreia com a Seleção A. Tinha 17 anos e foi dos dias mais felizes da minha vida!
