Valencia no buraco
Quando era profissional de futebol, nunca entendi como era possível que as grandes equipas descessem de divisão. Por exemplo, em Inglaterra, nenhuma equipa se salvou de perder a categoria. Nem um dos maiores clubes do Mundo, como é o Manchester United, se livrou do inferno da segunda divisão. Outro gigante que desceu foi AC Milan, em 1979/80, por corrupção, devido às apostas desportivas no caso ‘totonero’.
Mas a sua única descida por péssimos resultados foi na época 1981/82. E foi um escândalo já que ninguém podia imaginar que aquele grande Milan comandado pelo génio Franco Baresi baixasse de categoria. Na primeira oportunidade que tive, mal assinei pelos rossoneros em 1995, perguntei ao Franco o que tinha acontecido naquela época para descerem e a sua resposta foi esclarecedora. "Só tínhamos ganho um jogo nos primeiros três meses, em dezembro estávamos no buraco. E quando uma grande equipa está nos últimos lugares a começar a segunda volta dificilmente consegue sair dali. O plantel não estava feito, nem preparado animicamente, para lutar pela permanência. Mais que pressão, começámos a viver um pesadelo diário. Nós e as nossas famílias não podíamos sair à rua. A segunda volta foi um inferno, sentíamos pânico. Apesar de muitos de nós serem internacionais... parecíamos amadores medíocres. Foi o pior momento da minha carreira. Ainda tenho pesadelos com as centenas de miúdos a chorar quando descemos de divisão..."
Como profissional, joguei em várias grandes equipas e felizmente nunca passei por este pesadelo. A pior experiência foi na época 1988/89, no Atlético Madrid. Nas primeiras quatro jornadas tínhamos três derrotas e um empate. Estávamos no último lugar no primeiro mês, mas demos a volta e ficámos em quarto. Mas como adepto e pai, a história é outra…..
Quatro anos depois daquela conversa com a lenda italiana, na temporada 1999/00, já estava retirado do futebol, e o meu Atlético – depois de oito jornadas – era o último e comecei a pensar na frase do Franco Baresi ("Quando uma grande equipa está no buraco, a começar a segunda volta, dificilmente consegue sair"). A equipa reagiu um pouco, mas entre a intervenção judicial que começou a controlar o clube (devido a irregularidades financeiras e dívidas ao Estado) e aos 15 jogos sem ganhar, o Atlético chegou ao último jogo à beira do abismo. Se não ganhasse em Oviedo descia. Nunca esquecerei aquele dia porque vi a partida juntamente com os meus dois filhos, que já eram fanáticos do Atlético. O Paulinho tinha 10 anos e o Fábio 9. Apesar da tenra idade já conseguiam perceber a importância do jogo, que no fundo era muito mais que um jogo. Quando o Atlético perde e desce, vi os meus filhos chorarem de impotência, tristeza e deceção. Aí, mais do que nunca, pensei nas palavras do mítico Baresi.
Mais tarde falei com vários jogadores colchoneros que desceram naquele ano. Um deles disse-me que quando estavam no buraco a pressão era tanta, que a sua mulher era insultada até quando ia comprar o pão e tiveram de mudar de padeiro...
Recordo-me desta história porque o Valencia, no mercado de verão, contratou Nani, Medran, Montoya, Mario Suarez, Munir, Mangala e Garay – sete jogadores de grande qualidade – que, juntamente com Diego Alves, Santos, Abdennour, Cancelo, Enzo Pérez, Parejo, Rodrigo, Gaya, Siqueira e Bakkali, entre outros, faziam que este projeto para a temporada 2016/2017 fosse um sucesso.
Cinco meses depois já tiveram dois treinadores (Pako Ayestarán e Prandelli) e ambos fracassaram. Estamos em janeiro e os ches estão no buraco, com 12 pontos, empatados com o antepenúltimo que é o Gijón. Na passada segunda-feira, depois de perderem por 4-1, em casa, na primeira mão da Taça, contra o Celta de Vigo, começou o caos. Fora do estádio, centenas de adeptos protestaram, com frases tipo "esta camisola não a mereceis"; "Peter Lim canalha fora de Mestalla"; "direção... demissão" e terminou com insultos aos jogadores. Amanhã jogam uma final, contra o Osasuna que é o último. Se perdem... o pesadelo diário começará. Alguns até de padeiro vão ter de mudar. Vida difícil para Nani, Cancelo e companhia….
CALDEIRADA DA SEMANA
China
Depois da chegada à liga chinesa de Oscar, Tévez e Witsel, com contratos multimilionários, a administração governamental encarregada de regular o desporto no país qualificou de "irracional" os gastos que os clubes estão a fazer para contratar estrelas estrangeiras. Um porta-voz da administração, em entrevista publicada pela página oficial do organismo, disse que tem de existir um valor máximo nas compras e nos salários dos jogadores. Não acredito nisto. Penso que enquanto os chineses não tiverem a melhor liga, com os melhores jogadores do Mundo, não vão parar de investir. Esta caldeirada vai durar anos e talvez décadas.
NÓS LÁ FORA
Marco Silva
Grande notícia para o futebol português, quando o Hull City confirmou quinta-feira que o seu novo treinador seria Marco Silva . A Premier League é o sonho a que todos os técnicos ambicionam chegar algum dia. E o Marco, depois de treinar Estoril, Sporting, e os gregos do Olympiacos, conseguiu concretizar este grande sonho de dirigir uma equipa na máxima categoria do futebol inglês. O Hull City é o último classificado do campeonato, pelo que seria espetacular que o Marco conseguisse que os tigers ficassem na Premier League na próxima época. Parabéns e muita força míster.
ÁLBUM DE RECORDAÇÕES
Natal lá fora
Quando saí de Portugal, em 1987, tinha 21 anos e durante todo o tempo em que estive fora do país, sempre fui um emigrante privilegiado. A exceção ocorria quando não podia passar o Natal com a família, no meu Montijo. Na minha etapa pela liga italiana fui operado três vezes em três anos e todas elas perto da quadra natalícia. Duas foram em outubro e a outra em novembro, o que me obrigou sempre a passar o Natal em Itália. Foi horrível! Quando chega esta quadra obrigatoriamente recordo aqueles dias de tristeza em Reggio Emilia e em Milão.
