A luz intensa

Pedro Adão e Silva

Pedro Adão e Silva

Professor Universitário
Pedro Adão e Silva

A chave de uma derrota

O Porto deste ano é superior ao Benfica, mas, resultado à parte, essa superioridade não se viu na Luz no domingo. Num jogo em que as equipas procuraram mais anular-se mutuamente do que dominar o jogo, o que fez, de facto, a diferença foi um remate improvável, mas, também, um aspeto surpreendente e erros costumeiros.

A surpresa esteve na quebra física do Benfica. Tendo em conta que, dos três grandes, é a equipa que menos jogos tem, é difícil compreender como é que, no último clássico, foi a primeira a acusar o desgaste físico. Tanto mais que essa quebra contribuiu em importante medida para o ascendente tático do Porto na segunda parte. Por isso mesmo, contra a opinião de muitos, a única substituição que Rui Vitória operou que fez sentido no contexto do jogo, foi a entrada de Samaris. O Benfica – até para preservar o empate – precisava, mesmo, de reforçar o meio campo.

O que me leva ao erro habitual. Pela enésima vez, o treinador do Benfica lançou uma equipa com uma estratégia adequada (por isso mesmo, o Benfica foi superior, mesmo que pouco contundente, na primeira metade), para, depois, ao longo dos 90 minutos, não ser capaz de se adaptar às mudanças da partida e, muito menos, às alterações táticas que Sérgio Conceição introduziu ao intervalo.

Na segunda parte, o Porto pressionou mais alto (mas pressionou pouco) e Otávio e Brahimi (e já não apenas este) juntaram-se mais a Herrera e Sérgio Oliveira. Foi o suficiente para o Benfica deixar de conseguir construir desde trás. Mais, sem Jonas em campo e Pizzi ausente (o bragantino foi, uma vez mais, uma sombra do jogador decisivo da temporada passada), o jogo interior do Benfica não existiu, as jogadas associativas entre alas e laterais não entravam, pelo que restavam os piques de Rafa para pôr o Porto em sentido. Mas numa daquelas substituições que, à imagem do que acontece no basquetebol, parecem fazer parte de uma rotação planeada, Vitória tirou do jogo o elemento mais acutilante do Benfica – enquanto Conceição ia dando sinais (tímidos) de que queria vencer. O Porto acabou por ter a sorte do jogo, mas, de certa forma, os fundamentos da vitória estavam a emergir e assentaram na combinação de declínio físico com passividade e equívocos táticos.

Como sempre acontece hoje em dia, terminado o jogo no estádio, este prosseguiu nas televisões. É também em domingos como este que se percebe melhor as causas para a atmosfera degradada em torno do futebol. Depois de um jogo futebolisticamente vulgar, mas muito emotivo e taticamente interessante, os canais de televisão escalpelizavam ad nauseam a arbitragem. Fica, assim, uma vez mais, confirmado que esta obsessão nacional de tudo explicar a partir dos erros dos árbitros (que os houve), não tem nem nos treinadores, nem nos jogadores, nem sequer nos dirigentes, os seus principais responsáveis, nasce, sim, nos canais de informação e na dinâmica das audiências. Insisto num desejo: que os benfiquistas saibam resistir a este tipo de justificações para os falhanços em campo.

16.04.2018