A luz intensa

Pedro Adão e Silva
Pedro Adão e Silva Professor Universitário

A diferença que faz um treinador

O melhor futebol praticado em Portugal não é de nenhum dos três grandes. Está em Chaves e tem um responsável: Luís Castro. Claro está que o Chaves é uma equipa bem mais fraca do que Benfica, Porto, Sporting, Braga e até Rio Ave. Com um orçamento mais reduzido (3 milhões, abaixo de Rio Ave – com 6 – e de Braga – com 12) e com um valor de mercado, de acordo com o Transfer Markt, que é, apenas, o nono da Liga NOS, o diferencial na qualidade individual dos jogadores e, não menos importante, uma estrutura bem mais recente na Iª Liga e menos profissional, ajudam a explicar o lugar ocupado na tabela classificativa.

Mas uma coisa é olharmos para os rrsultados do Chaves, outra, bem distinta, é reconhecermos uma ideia de jogo consistente, baseada na posse de bola, num futebol posicional, que não pode deixar de entusiasmar quem goste, de verdade, do desporto rei. Sintomaticamente, pelas redes sociais pululam vídeos virais do Chaves de Castro, à imagem dos do Nápoles de Sarri, do City de Guardiola ou do Bétis de Setién. Em todos os casos, um futebol envolvente, com as equipas a chegarem juntas à baliza, muita circulação de bola e uma elegância plástica que, se depreende, é tradução de uma ideia de jogo desafiante.

Por isso mesmo, é de inteira justiça o espaço dedicado a Luís Castro no último número da The Tactical Room. Numa interessante entrevista na revista dirigida por Martí Perarnau, Castro elabora sobre a sua ideia para o futebol. Não é um discurso sobre gestão de emoções ou sobre o papel da vontade de vencer. Bem pelo contrário, é uma conversa onde se prova que, também, no futebol os aspetos emocionais decorrem de uma abordagem racional.

Recupero duas ideias de Luís Castro: "uma equipa, em posse, tem de jogar sempre pensando no coletivo, e para que isso aconteça, todos se têm de posicionar de modo adequado. (...) é muito difícil uma jogada em que se integre a totalidade dos onze jogadores terminar numa situação de golo"; mas o treinador não esconde o seu "orgulho com o modo como a equipa trabalha para o alcançar. É o que procuramos nos treinos diários (...), um reflexo da nossa ideia de jogo". Uma ideia de jogo e treino orientado para a traduzir em campo.

Parece evidente, mas é uma abordagem que merecia ser mais partilhada. Até porque, após ter-se sagrado campeão da exigente IIª Liga com o Porto B (facto notável, considerando a realidade das equipas B e a maturidade competitiva de muitos dos clubes que disputam a competição), depois de, já no ano passado, ter sido autor do futebol mais interessante da Iª Liga, quando conduzia o Rio Ave, agora, quando se vê o Chaves a jogar, é impossível deixar de pensar o que faria este treinador noutro contexto, com mais recursos, uma estrutura de topo, estabilidade e jogadores com outra qualidade individual. Luís Castro merece-o, mas, acima de tudo, merecem todos aqueles que gostam do futebol jogado em campo.

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