A luz intensa

Pedro Adão e Silva
Pedro Adão e Silva Professor Universitário

B ou não B, eis a questão (II)

A semana passada dei aqui conta do ceticismo com que encaro a proposta de criação de mais um campeonato – sub-23 –, promovido pela Federação, e que implica um desinvestimento ou até o fim da participação das equipas B nas competições organizadas pela Liga.

Esta opção terá custos para o futebol português, em particular de seleções. Desde 2012, ano da criação das equipas B, as seleções de sub-21 passaram a ter um sucesso nas competições internacionais que, até então, não haviam tido. Por muitos méritos que o trabalho da Federação tenha tido, e, em particular, o de Rui Jorge (o sucessor natural de Fernando Santos), a explicação está, em importante medida, no upgrade competitivo a que os novos talentos nacionais foram sujeitos na 2ª Liga, saltando etapas formativas e ganhando maturidade.

Hoje, queria aduzir dois pontos. Um sobre a competição sub-23 em Inglaterra e outro sobre as vantagens financeiras que a equipa B tem trazido ao Benfica.

A crer no pouco que por aí se vai lendo sobre a nova competição (há alguma razão para decisões destas serem tomadas sem um debate público informado, com argumentos que possam ser discutidos racionalmente?), o campeonato sub-23 português busca inspiração na experiência inglesa, que, alegadamente, promoveu o sucesso das seleções jovens do país. Ora, a explicação para este sucesso está muito mais na aposta que, nos últimos anos, os clubes da Premier League têm feito nas academias. Sintomaticamente, como Guardiola não se tem cansado de sublinhar, a incorporação dos jovens da formação nas primeiras equipas continua difícil, muito por força de terem um contexto competitivo desinteressante, jogando em estádios vazios, em jogos de baixa intensidade física. É por isso mesmo que o catalão vem apelando à criação de equipas B para expor os talentos das academias a ambientes mais exigentes. Alternativamente, tem defendido uma política de empréstimos a clubes de outros países (será este o caminho a seguir pelos três grandes portugueses, caso acabem as equipas B).

Resta a questão financeira. Na sexta-feira, para a Aposta Tripla da SportTV+, fiz umas contas toscas e conservadoras sobre as receitas de vendas de jogadores do Benfica B desde 2012. Toscas porque assentes nos dados públicos do TransferMarkt (ou seja, não consultei os relatórios e contas); conservadoras porque considerei apenas os jogadores cujas passagens pela equipa B foram relevantes para a sua afirmação (por exemplo, deixei de fora Ederson) e não considerei empréstimos pagos, nem acréscimos ao valor da venda inicial (o que aconteceu com a ida de Bernardo para o City ou de André Gomes para o Barça). Em cinco temporadas, cheguei a 232 milhões de euros de vendas. Foi com satisfação que registei que, curiosamente, o Record de ontem dava conta do mesmo exercício feito pela Liga (com a mesma fonte) e com valores muito semelhantes. Persiste a pergunta: qual a razão para se estar a matar a galinha dos ovos de ouro do futebol português?

1
Deixe o seu comentário

Assinatura Digital Record Premium

Para si, toda a
informação exclusiva
sempre acessível

A primeira página do Record e o acesso ao ePaper do jornal.

Aceder

Pub

Publicidade