A luz intensa

Pedro Adão e Silva
Pedro Adão e Silva Professor Universitário

Das vitórias no Minho ao Carlos Manuel

1. Se levarmos a sério o que se escreve nas redes sociais e até em alguns jornais respeitáveis, o Benfica só vence jogos porque os árbitros estão comprados ou, alternativamente, o adversário facilitou. Não há nunca mérito nas conquistas do clube. Acontece que em Braga, como na Luz contra o Sporting, o Glorioso mostrou um futebol envolvente e deixou sinais sérios de que o 4x3x3 começa a consolidar-se. As exibições foram, por isso, convincentes. O que tem efeitos: enquanto o Benfica agonizava em campo, como aconteceu até há bem pouco, os benfiquistas exacerbavam qualquer erro da arbitragem, que viam erradamente como a explicação para os falhanços futebolísticos. Agora que o futebol melhorou, o que os árbitros fazem em campo passou, naturalmente, a ser irrelevante. Convençam-se: esta asserção é válida para o Benfica como para qualquer outro clube.

Regressemos a Braga. Sintomaticamente, em três temporadas, Rui Vitória tem um registo 100% vitorioso no Minho. Na primeira época, foram cinco deslocações vitoriosas; na segunda, quatro; e esta temporada três. Como as saídas a Guimarães, Moreira de Cónegos ou Braga (deixemos de lado um já longínquo jogo para a Taça com o Vianense) estão longe de ser passeios, algum mérito o Benfica de Vitória terá na forma como encara estas partidas. Claro está que, para os adeptos das teorias da conspiração, este registo só serve para consolidar as suas hipóteses mirabolantes.

A difusão desta narrativa é, na verdade, apelativa. Para uns é a forma de justificar os próprios insucessos desportivos ("só não ganhamos tudo porque o Benfica tudo controla"), para outros é um exemplo do que Freud identificou como projeção – um mecanismo psicológico de defesa, através do qual atribuímos aos outros os nossos comportamentos (em particular os que procuramos reprimir).

2. Para quem foi contaminado pelo vírus do futebol no Estádio da Luz na primeira metade dos oitenta, o Carlos Manuel tem enormes responsabilidades na propagação dessa doença infantil. A verdade é que o tempo passa e o Carlão fez ontem 60 anos. No domingo, em entrevista a Record, mostrou que continua igual ao que sempre foi: "o menino que veio da Moita, das oficinas da CP, e deixou a vida correr". E deixa uma certeza: "podem não acreditar, mas as saudades maiores são dos amigos da CP, os que trabalhavam comigo. Encontrei gente maravilhosa no futebol mas aqueles sete ou oito com quem lidava diariamente na CP foram especiais". Recordo a Locomotiva do Barreiro pelas suas cavalgadas imparáveis e pelos remates certeiros, mas, acima de tudo, o que o Carlos Manuel me traz é a memória de um futebol que já não regressa e de jogadores que, ao contrário do que acontece agora, não viviam fechados numa bolha social. Foi assim quando brilhava nos relvados e continua a sê-lo hoje. É desta matéria que os ídolos são feitos.

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