A luz intensa

Pedro Adão e Silva
Pedro Adão e Silva Professor Universitário

Dos Pecados e dos Árbitros

Os árbitros são humanos, erram e talvez até errem menos do que os avançados na cara do golo. Mas a humanidade dos árbitros não se esgota na propensão ao erro: são um grupo corporativo, que reage às críticas com mecanismos típicos de autodefesa de classe. Talvez seja por isso que os clubes perceberam que, para vencer, não serve de muito criticar as arbitragens. Esta ambição tem tido consequências: de uma forma ou outra, o que os clubes procuram é seduzir os homens do apito, por vezes empurrando-os para o pecado. Não o fazem é da mesma forma.

O Porto tem um histórico sólido de estimular a gula entre os árbitros. Bem sei que, na hierarquia pecaminosa, não se trata de um dos pecados mais graves, mas o desejo insaciável de comida e bebida encontra reminiscências na tradição de agraciar árbitros com ‘café com leite’ e ‘fruta’. Não saberemos nunca se esta era, de facto, proibida. Mas são práticas que estão distantes da virtude da temperança. Desde Dante que é sabido que quem cede à gula está condenado a perecer atolado em lama espessa. Pior mesmo, talvez seja a luxúria. Esse desejo passional pelo prazer corporal, que nem com "conselhos matrimoniais" de um Papa pode ser redimido e que sentencia a turbilhões eternos, no vale dos ventos.

O Sporting vive amarrado à inveja. Um desejo exagerado por tudo o que os outros têm. Consumido por este pecado, o clube secundariza o trabalho que deve ser feito para garantir vitórias e procura encontrar justificações para os seus insucessos, também, nos árbitros. Mas desde o início, do livro de Genesis, quando Caim matou Abel, que ficou claro que Deus não protege os que se movem a inveja. A asserção é controversa, mas o destino de Caim foi o Leste do Paraíso, um lugar de derrotas.

O Benfica não está livre de pecados. Bem pelo contrário, incorre na soberba, uma propensão para se julgar superior aos outros. Os elogios aos árbitros, promovendo o orgulho da classe, podem ser vistos como uma forma inteligente, mas, também, por vezes, ostensiva de arrogância. Escolhe-se aqueles que devem ser elogiados e espera-se que a vaidade humana faça o resto. São caminhos que se podem revelar sinuosos.

Como benfiquista confesso, arrisco um conselho: apenas a humildade é capaz de contrariar a soberba. Para continuarmos nesta senda vitoriosa, devemos abandonar a ostentação (as vitórias passadas), agir com simplicidade e cultivar as virtudes. Temos de resistir à propensão ao pecado arbitral no meio de nós.

Nota: o Benfica conquistou o seu 27º campeonato de basquetebol. Carlos Lisboa esteve envolvido em 17 destes títulos: como jogador, diretor e agora treinador. Neste ano de tripleta, acompanhado por um coro de críticas, é caso para dizer que o campeonato foi mesmo do Carlos Lisboa, com muito mérito.

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