A Luz intensa

Pedro Adão e Silva
Pedro Adão e Silva Professor Universitário

João Félix: saber esperar

Para todos os grandes jogadores, a memória coletiva reserva um começo. Um momento que é recordado como aquele em que uma jovem promessa dá um passo que anuncia o estrelato. Quem não se lembrará, por exemplo, da extraordinária exibição de Ronaldo frente ao Manchester United na inauguração do Estádio Alvalade XXI? Da mesma forma, o 'começo' de João Félix foi o golo no dérbi.

O enorme talento do jovem avançado é indiscutível. A este junta-se-lhe um faro de golo – revelado na época passada quando foi utilizado como avançado, primeiro, esporadicamente na equipa B (quatro golos, hat trick ao Famalicão) e, depois, em permanência, na fulgurante fase final do campeonato de juniores (15 golos em 11 jogos).

Félix, tal como Bernardo Silva antes dele, é um daqueles que não engana: dotado de criatividade e capacidade técnica invulgares, executa o que intui e intui o que a esmagadora maioria dos jogadores tenta pensar. O passe para o golo cantado, mas não concretizado, de Ferreyra com o PAOK e dois ou três lances, além do cabeceamento fulminante, com o Sporting (em cerca de meia hora no total de ambas as partidas...) são pequenos indícios da genialidade do tondelense. Sinais que só surpreendem quem não teve a felicidade de o acompanhar nas camadas jovens e na equipa B do Benfica. Só alguns eventuais obstáculos poderão impedir João Félix de concretizar o futuro que se anuncia (ignoro propositadamente as lesões, por serem incontroláveis).

Como acontece a todos os jovens talentos, o primeiro obstáculo é a tentação de se deixar enredar nos pequenos sucessos obtidos e no mediatismo subsequente, julgando que nada resta para conquistar. A postura após o dérbi e, sobretudo, o empenho que colocou, no ano passado, no regresso aos juniores, depois de ter brilhado na equipa B, são bons indicadores da personalidade de João Félix.

Os treinadores têm também um papel fundamental nesta fase de transição: caso não concedam oportunidades aos jovens promissores ou insistam em utilizá-los em posições desadequadas às suas características. No caso de Rui Vitória, cujo currículo é, nesta vertente técnica, insuspeito, Félix está em boas mãos (vide o caso de Guedes, que evoluiu quando transitou para o meio).

Sobra a gestão de carreira. Um processo que, hoje, é da responsabilidade do atleta e de quem a gere, mas também dos dirigentes. É quase inevitável que, mais cedo do que tarde, o futuro de Félix passe pelo estrangeiro. Resta apenas saber quando e onde. Cabe-lhe avaliar a melhor oportunidade das muitas que se lhe apresentarão e resistir, com sentido estratégico, tanto à tentação do dinheiro rápido como, igualmente frequente, à pressa que os clubes têm em fazer mais um 'grande negócio'.
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