A luz intensa

Pedro Adão e Silva
Pedro Adão e Silva Professor Universitário

Jonas, o encostado

A novela Jonas tem abalado os benfiquistas. Não é para menos: o brasileiro é o melhor estrangeiro de sempre a ter vestido o manto sagrado e o jogador mais decisivo dos últimos anos.

Há outros estrangeiros de qualidade superlativa que passaram pelo Benfica, mas os que comparam com Jonas ou atingiram o seu apogeu antes (é o caso de Aimar, que deixou pormenores de génio, mas, tolhido por lesões, nunca teve a consistência com que sonhámos) ou tiveram o seu pináculo após abandonarem a Luz (penso, por exemplo, em Matic, um dos melhores 6 do mundo, que no Benfica chegou a viver à sombra de Javi Garcia...).

Além da qualidade técnica notável - que faz com que o jogo de futebol se transforme numa outra coisa, bem mais simples e linear quando a bola lhe passa pelos pés -, os números de Jonas não deixam margem para dúvidas. Marcou 112 golos em 152 jogos oficiais, uma média de 30,5 por época e 0,8 por jogo, colocando-o em 3º nos melhores marcadores do clube, atrás de Eusébio e de Francisco Rodrigues (que jogou na década de trinta). Se considerarmos apenas o campeonato, tem a melhor média de sempre (99 golos em 110 jogos). No campeonato, com Jonas em campo, o Benfica tinha garantido quase um golo por jogo (0,9!).

Sempre que a equipa revelou problemas na organização ofensiva, foi Jonas praticamente sozinho quem resolveu os jogos. Se nós, adeptos, devemos estar preocupados com a sua saída, que pensar de Rui Vitória, que teve em Jonas um desbloqueador em campo e que, agora, será - como sempre acontece com os treinadores - a principal vítima da ausência do avançado. Pense-se, por exemplo, na temporada passada: se disputámos o título até ao fim foi porque Jonas carregou a equipa às costas. Sintomaticamente, foi durante a sua ausência, nas últimas jornadas, que o Benfica entregou o campeonato. Se assistimos a algum declínio foi do Benfica sem Jonas e não ao declínio de Jonas.

Dir-me-ão, Jonas tem 34 anos e há racionalidade em vendê-lo agora, com benefícios para o próprio e também para o Benfica. Uma reforma das arábias seria do interesse de todos. Discordo: por um lado, porque o futebol não é um negócio como os outros. Há uma vertente emocional que tem de ser alimentada e preservada (não se descartam, pela porta pequena, figuras como Jonas, em agosto, com - espera-se - sete jogos decisivos no horizonte). Depois porque não temos garantias nenhumas de que Jonas não continuasse a ser decisivo (aliás, nos poucos minutos que teve esta pré-temporada, a classe continuava toda lá). Finalmente, porque não se vislumbra nenhuma alternativa no plantel (João Félix - desde que não seja vendido antes de jogar - só ganhava em maturar com Jonas ao lado). É evidente que Jonas tem direito a ser o mais bem pago do Benfica (afinal é o melhor) e não há argumento de racionalidade económica que resista quando, ao mesmo tempo que se hesita no valor a pagar a Jonas, se atira dinheiro à rua, para me ficar por este defeso, com João Amaral de 26 anos ou Lema de 27. Jonas é mesmo um caso em que o risco de perder dinheiro compensa.

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