A luz intensa

Pedro Adão e Silva
Pedro Adão e Silva Professor Universitário

Não vou ser como a toupeira

É com muito desconforto e ainda mais tristeza que tenho assistido à sucessão de casos envolvendo o meu Benfica. Como adepto e sócio vai para 40 anos, espero que tudo o que tem sido publicado seja falso e, se assim for, que a justiça tenha mão pesada para com os difamadores. Contudo, sei também demasiadamente bem que o tempo da justiça é exasperadamente lento e não compatível com o ritmo mediático e político. Mais, os riscos de comentar investigações que deveriam permanecer em segredo de justiça e cujos contornos nunca conhecemos na plenitude são, invariavelmente, muitos. Espanta-me sempre a facilidade com que tantos dão esse passo com ligeireza, mesmo que o tema seja futebol (por definição, território de paixões irracionais).

Nada disto me impede de reconhecer a relevância das suspeições que recaem sobre o Benfica. Como benfiquista devo, aliás, acrescentar que sou totalmente insensível a uma linha de resposta que assenta em cavalgar notícias que procuram alimentar suspeições relativamente a Porto e a Sporting. Imagino que, no meio do surto de insanidade mental que tem varrido as discussões em torno do futebol português, este lançar de lama sobre todos diga muito a alguns. A mim, diz-me pouco e tenho muita dificuldade em compreender como é que são os próprios clubes que dinamizam estas campanhas, diminuindo o valor do negócio de que dependem. Do Benfica só quero respostas cabais e que garantam que nenhum ato ilícito foi praticado por quem tem responsabilidades temporárias no clube, convém nunca esquecer, por vontade soberana dos sócios.

Ao contrário do que se passa e passou noutros clubes, tenho a convicção de que, no Benfica, se e quando forem deduzidas acusações (enfatizo o "se"), os sócios terão o discernimento suficiente para avaliar o conteúdo das mesmas e saberão defender a instituição, protegendo-a de todos os que a possam ter manchado. No Benfica, estou certo, não teremos a triste unanimidade que, ainda hoje, se vê noutros clubes – em que não se ouve uma única voz a criticar dirigentes que há muito deveriam ter sido varridos do futebol. Há juízos morais que podem e devem ser feitos, para além dos bloqueios processuais.

Já não restam dúvidas de que se está a passar no futebol um processo similar ao que varreu a política e o sistema financeiro. O Ministério Público passou a investigar o que sempre foi tolerado e, pelo caminho, comete muitos atropelos processuais, aos quais soma vários equívocos substantivos. Devemos lamentar-nos das violações gritantes do segredo de justiça, da forma como a culpabilidade é construída na praça pública e do modo como indícios sérios convivem com suspeições ridículas, que não resistem a nenhum teste elementar. Mas, não tenhamos, contudo, dúvidas: nada vai ficar como antes no futebol português.

2
Deixe o seu comentário

Assinatura Digital Record Premium

Para si, toda a
informação exclusiva
sempre acessível

A primeira página do Record e o acesso ao ePaper do jornal.

Aceder

Pub

Publicidade