O Benfica é nosso
Há um Benfica antes e depois da direção de Luís Filipe Vieira. Nenhum benfiquista se esquecerá do estado do clube após a noite negra de Damásio e, em particular, da de Vale e Azevedo. Então, a questão era a sobrevivência imediata e a viabilidade do clube no médio prazo. A dívida de gratidão para a equipa liderada por Manuel Vilarinho é incomensurável, como há que reconhecer a estabilização institucional e o acerto das opções estratégicas prosseguidas no consulado de Vieira. Estou à vontade para o escrever pois não só nunca votei no atual presidente (em importante medida porque nunca esteve em risco a continuidade desta direção), como tenho repetido o meu desconforto e ceticismo com a sucessão de casos que envolvem o clube.
Se a questão é saber se os sócios merecem o Benfica que têm hoje, julgo que uma larga maioria tem consciência da mudança estrutural que ocorreu. Nos últimos 15 anos, o Benfica trilhou um caminho estrategicamente certo.
Perante um contexto económico e desportivo radicalmente diferente do que existiu durante décadas, o Benfica soube adaptar-se: valorizou a marca, potenciando-a, internacionalizando-a e colocando-a ao nível dos maiores clubes mundiais; desenvolveu e modernizou as infraestruturas, construindo um estádio moderno, contra a vontade de muitos, e fazendo no Seixal um exemplo do que deve ser um moderno centro de formação; e, acima de tudo, apostou num modelo de negócio alicerçado na formação de talentos que, sendo o único possível a partir de um campeonato periférico, permitiu combinar resultados desportivos e financeiros.
Esta avaliação muito positiva não implica desvalorizar as graves acusações que pairam sobre a direção. Bem pelo contrário, é precisamente por terem sido tomadas as opções estratégicas certas (e são essas que explicam a senda vitoriosa e a recuperação financeira) que custa tanto ver o Benfica envolvido em casos que mancham a nossa honra e que estou convencido, além do mais, em nada contribuíram para o sucesso desportivo. É, aliás, uma visão anacrónica do futebol que explica que se preste tanta atenção ao submundo do jogo, que foi fundamental no passado, mas que hoje contribui de forma marginal para os resultados em campo, no final dos 90 minutos.
Ainda regressando à AG, não sei se "vamos levar" com Vieira por muitos mais anos. Se no Benfica nunca se promoveu a entronização de quem, transitoriamente, preside ao clube, não será agora, num momento em que o escrutínio e a cultura de exigência são maiores, que se passará a acreditar em presidentes providenciais. Num momento como o que o clube atravessa, a humildade de quem representa os sócios é sempre a atitude mais avisada. É que, como tantas vezes se ouve, "o Benfica é nosso e há de ser"
