A luz intensa

Pedro Adão e Silva
Pedro Adão e Silva Professor Universitário

O Benfica preso por arames

O jogo com o Tondela acabou por ser um retrato sintético da temporada do Benfica. Começámos a ganhar para, logo depois, a equipa soçobrar, parecer um conjunto banal, sem princípios rudimentares na organização defensiva e com défices de qualidade individual. No entanto, tal como aconteceu a partir de Guimarães, na segunda parte, o Benfica reergueu-se, apresentou um futebol dominante e podia ter chegado à vitória. Só que, no último fôlego, a equipa colapsou, trazendo à tona problemas de fundo, inscritos desde agosto. No fundo, com o Tondela, como ao longo do ano, o Benfica foi-se aguentando preso por arames.

Permanece um mistério que um clube que podia conquistar um inédito penta, tenha feito uma fortuna em vendas e não tenha reinvestido quase nada. A baliza é o caso mais evidente, mas está longe de ser único. Depois de Oblak, Júlio César e Ederson, ter Varela como guarda-redes principal é estranho. Como é incompreensível que nunca houvesse uma alternativa a Pizzi (e que o jogador com perfil mais próximo, Horta, tenha sido emprestado ao Braga e agora vendido para os EUA). Na posição 6, Fejsa acabou por jogar quase sempre apenas porque fizemos poucos jogos (e, se tivéssemos tido muitos jogos, sem Fejsa, a equipa não iria longe). Já na defesa, a segunda unidade está a anos luz da primeira: quando falta um dos titulares nas laterais ou no centro da defesa, o cenário é deprimente.

A falta de ambição e as poupanças do Benfica vão sair bastante caras. Sem campeonato e com a Champions em risco, as receitas caem brutalmente, ao mesmo tempo que as necessidades de reforçar a equipa vão aumentar (à custa da dívida!). A aposta no Seixal faz todo o sentido, mas ninguém é campeão apenas com aposta na formação.

Depois há Jonas. Numa equipa com fragilidades no processo coletivo, a presença do brasileiro em campo ajuda a suprimir as debilidades, liga o jogo interior, oferece contundência atacante e maturidade emocional. Quando falta Jonas, o Benfica perde qualidade e os resultados revelam-no. Na próxima temporada, não esquecer, Jonas – provavelmente o melhor estrangeiro que equipou de vermelho – fará 35 anos.

Para o fim, o treinador. É fácil identificar os erros cometidos por Rui Vitória, mas foi também ele que teve o golpe de asa para alterar o sistema, que apostou em jovens e que soube gerir o balneário. O seu principal erro foi mesmo ter aceitado disputar o penta com este planeamento de temporada.

Nota: o Benfica tem-se insurgido – e bem – contra julgamentos baseados em informação libertada a conta-gotas e assente em violações de correspondência privada. Não escondo o incómodo com o que já se sabe, mas uma coisa são notícias, outra é o teor de uma eventual acusação. Por isso mesmo, foi com estupefação que percebi que o Benfica promoveu ativamente o conteúdo de uma denúncia anónima (como aquelas contra as quais se tem insurgido!) com acusações atentatórias do bom nome de pessoas concretas. Este passo (em falso) envergonha-me enquanto benfiquista e é, ao mesmo tempo, um tiro de pólvora seca e um precedente muito grave.

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