A luz intensa

Pedro Adão e Silva
Pedro Adão e Silva Professor Universitário

O dilema do futebol português

As contas das SAD reveladas a semana passada mostram que os clubes estão a fazer o possível num novo contexto do negócio do futebol. Mas fazer o possível pode não ser suficiente para garantir, ao mesmo tempo, competitividade e sustentabilidade financeira.

Com intensidades diferentes, os três grandes estão a procurar reduzir o seu passivo e diminuir a exposição à dívida bancária. O Benfica, que naturalmente interessa mais ao autor destas linhas, apresenta, aliás, números impressionantes - o passivo reduziu-se em 53 milhões de euros no primeiro semestre (estando já anunciada uma redução ainda mais significativa no próximo exercício, com 100 milhões da receita da venda dos direitos televisivos a serem destinados a esse fim) e a dívida à banca está a ser substituída por empréstimos obrigacionistas, com custos muito mais favoráveis.

Esta melhoria financeira assenta num modelo de negócio estável, assente na aposta na formação e no scouting e por um investimento continuado nas infraestruturas. Como tem sido possível conciliar mudança paulatina do modelo de negócio com resultados desportivos, as receitas têm crescido de forma sistemática: da bilhética aos patrocínios passando, claro está, pelos prémios UEFA, direitos televisivos e de passes de atletas.

Este cenário não deve servir para ocultar os problemas de fundo que o futebol português enfrenta e que podem bem agudizar-se. Uma equipa portuguesa pode manter-se competitiva no quadro europeu, mas será à custa da sustentabilidade financeira; do mesmo modo que o equilíbrio financeiro pode hipotecar a competitividade desportiva.

Desde logo porque há alguma saturação do mercado doméstico. Será difícil continuar a encontrar patrocínios em Portugal, da mesma forma que os direitos televisivos não poderão gerar muito mais receitas e com o estádio quase todo vendido, a margem para fazer crescer a receita só pode ser feita à custa do preço dos Red Pass (o que contrariaria a natureza popular do Benfica).

A favor dos clubes portugueses joga, claro está, a pertença emocional, que, no Benfica, se revela na verdadeira excentricidade que é a receita de quotização, cerca de 17 milhões ano - que outro accionista estaria disponível para investir este valor todos os anos? - e um lugar intermédio no mercado global que tem sido utilizado com inteligência como plataforma para jogadores.

Mas convém ter presente que o fosso face aos grandes clubes europeus se está a acentuar e que as receitas UEFA tenderão a incrementar esse diferencial. Com falta de competitividade, défice de visibilidade internacional e perda de valor da Liga corremos bem o risco de nos tornarmos numa competição regional e irremediavelmente periférica. Alternativamente, os sócios podem perder o controlo dos clubes (a antecipação de receitas que Porto e Sporting têm feito aumenta em muito esta probabilidade). Já os sonhos europeus dos clubes portugueses podem não passar disso mesmo.

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