A luz intensa

Pedro Adão e Silva
Pedro Adão e Silva Professor Universitário

O Mundial é um instante

1. Talvez o essencial de um Mundial não esteja nem nos resultados, nem nos derrotados, nem sequer nos vencedores. Quando olhamos retrospetivamente para Mundiais passados, a memória agiganta-se com instantes fixos. Faz sentido, desde Santo Agostinho que estamos avisados de que "um instante é a eternidade". O Santo que era filósofo sublinhava que era no tempo fixo que podíamos encontrar o esplendor da eternidade, um presente como que absoluto. O futebol não é exceção.

A história dos Mundiais pode bem ser uma sequência de instantes desses: o drible do Pelé sobre o pobre guarda-redes do Uruguai, que não deu golo, mas acabou num belo romance do escritor brasileiro Sérgio Rodrigues; um estonteante quase jovem Roger Milla a marcar em tabelinha contra o Peru em 1982, num golo que não existiu, e um ancião Roger Milla a dançar golos em Itália; as lágrimas de melhor jogador do Mundo de um derrotado Gascoigne em Turim, em 1990; o Pirlo de camisola azul elegante, a recuar para melhor atacar, naquele movimento inconfundível de quarter-back; as roletas do Zidane de camisola azul, também elegante; ou o duelo Xavi/Iniesta, numa competição singular para apurar quem é que melhor parava o jogo para, logo, o fazer avançar.

Este Mundial ainda agora começou, já tem um desses instantes absolutos e saiu a Portugal. Um livre marcado com a cabeça pelo Cristiano Ronaldo: calções puxados para cima, árbitro desimpedido e um olhar fixo de quem tinha a certeza de que o remate, antes de o ser, tinha dado golo.

2. Num notável vídeo filmado numa sala de aula de uma escola no Uruguai, dezenas de crianças seguem a partida contra o Egipto. No momento do golo tardio, desatam a correr desorientadas em relação ao recreio, onde chegam outras tantas crianças, vindas de outras salas. Seguem-se minutos de celebração em círculos, braços no ar, alegria incontida. Imagine-se que o VAR, administrativamente sentado na sua roulotte tecnológica, após ter visionado 37 vezes a jogada, ajudado pelo super slow motion, tinha invalidado o golo de Giménez. Como seria o regresso daquelas crianças à sala? Suportariam a dor de apagar a alegria da celebração? O futebol precisa de verdade e de justiça, mas, visto em câmera lenta e transformado em exercício de escrutínio de arbitragens, arrisca a burocratizar-se e a substituir instantes de alegria incontida por uma maturidade adulta, igual à que nos acompanha quotidianamente, no resto da vida.

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