A luz intensa

Pedro Adão e Silva
Pedro Adão e Silva Professor Universitário

O problema do futebol português

Muitos leitores terão visto imagens da lesão do jogador de voleibol do Benfica. Durante o derby, Ary Neto deslocou o ombro, estando a sua carreira em risco. De imediato, a equipa médica do Sporting prestou auxílio e enquanto o brasileiro abandonava o pavilhão, os adeptos do Sporting ovacionaram-no. Sucederam-se trocas de agradecimento nas contas oficiais de twitter dos dois clubes. Um ambiente que contrasta de forma radical com o que se passa no futebol.

Não por acaso, o presidente da Federação tem alertado para a degradação do clima em redor do futebol e para a "apologia do ódio" que se instalou para "esconder insucessos", e que tem nos ataques sistemáticos às arbitragens o seu triste corolário. Faz sentido a preocupação de Fernando Gomes: se este ambiente ainda não contaminou o sucesso das seleções, o risco de tal acontecer é real.

Por que razão este clima de urbanidade que se vislumbrou, por momentos, numa partida de voleibol se encontra tão distante do dia-a-dia do futebol português?

Não sou adepto de um futebol higienizado. Pelo contrário, o sucesso do futebol explica-se por se tratar de um último reduto de irracionalidade, que precisa da dose justa de paixões exacerbadas. Há, contudo, limites e em Portugal estes têm sido ultrapassados demasiadas vezes.

Existem explicações para a degradação do ambiente em torno do futebol e muitas delas estão no espaço mediático.

Com o surgimento dos canais de cabo o ritmo noticioso intensificou-se e o espaço para análise aumentou. Ora não foi preciso muito tempo para os vários canais perceberem que não há minuto de televisão tão barato e que dê tanta audiência como pôr uns quantos adeptos a falar de futebol. Sei do que falo, pois eu próprio participo num desses programas, onde, justiça seja feita, mantemos uma bonomia relativamente incomum.

O problema é que nos programas de futebol fala-se, num tom exaltado e intragável, de tudo menos de futebol: 95% do tempo é consumido em discussões infindáveis em torno de erros das arbitragens – que cresceram exponencialmente com a qualidade das realizações que tornam possíveis repetições de todos os ângulos – e por comentários aos devaneios dos diretores de comunicação dos clubes.

A degradação do clima mediático tem na falta de acesso aos protagonistas do jogo outro dos problemas. É difícil encontrar uma entrevista a um treinador ou jogador onde estes falem de futebol. Os clubes não deixam os atletas e responsáveis técnicos falarem ou, quando deixam, estes não têm nada para dizer. Também a discussão sobre futebol tem horror ao vazio e há excesso de tempo de comentário e falta de assunto para comentar.

Claro que nem tudo é explicável pela dinâmica comunicacional. Pode bem dar-se o caso de o essencial da degradação do ambiente resultar da senda vitoriosa de um clube, num contexto de constrangimentos financeiros. Se o Benfica não vencer este ano, vão ver como vai melhorar o ambiente do futebol português.

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