A luz intensa

Pedro Adão e Silva
Pedro Adão e Silva Professor Universitário

O VAR, o zoom e o excesso de realidade

A introdução do VAR é, em si, uma melhoria significativa para o futebol português. Não fora esta inovação, muitas partidas teriam ficado contaminadas por erros de arbitragem irreversíveis. Mas o VAR não está isento de problemas. Por isso mesmo, como bem assinalou Rui Vitória, a utilização do VAR requer bom senso – como é sabido um atributo escassamente utilizado entre nós – e uma revisão do protocolo.

É natural que, estando a Liga portuguesa numa fase experimental de utilização do VAR, o protocolo precise de ser alterado. Afinando falhas evidentes (por exemplo, contrariando alguns incentivos que o árbitro assistente continua a ter para assinalar foras de jogo) e aproveitando o VAR para ajudar a contrariar o antijogo (a partir do momento que há paragens para consulta do VAR deve-se caminhar, também, para, na última fase dos encontros, só contar o tempo efetivo de jogo). Contudo, entre alterações, convém que não seja colocada em causa a função de comando do árbitro de campo, que tem de continuar a ser o ator soberano na aplicação das regras do jogo.

Mas, até ver, o principal problema do VAR é ter transferido do árbitro para o VAR a pressão sobre as arbitragens que se vem transformando no alfa e no ómega do futebol português. A questão é mesmo de contexto: com o VAR passámos a ter um zoom aberto sobre os erros de arbitragens, os que já existiam e os que passaram a ser vislumbrados.

O problema das arbitragens em Portugal continua a ser o mesmo: incompetência de muitos árbitros, cuja permanência na primeira categoria é difícil de compreender, e uma péssima gestão do decorrer dos jogos (lá está, a questão de bom senso). Quem julga que os árbitros favorecem a contra b ou b contra c porque estão corrompidos e que é isso que explica o (in)sucesso competitivo está a atirar ao lado e preso a uma realidade ultrapassada.

O mais significativo, no entanto, é a alteração da forma como percecionamos os casos de arbitragem.

No passado, guardávamos uma experiência fugaz, vivida no estádio ou através dos relatos radiofónicos. Na verdade, ninguém tinha capacidade de garantir se o penalty tinha ficado por marcar. Depois, evoluímos para a repetição ad infinitum do mesmo lance, alimentando horas de conversa improdutiva nas televisões. Hoje, vivemos um admirável mundo novo: cada lance é anatomizado, visto de todos os ângulos possíveis e o movimento é distorcido pelo super slow motion. Com consequências: o número de lances duvidosos por jogo aumentou exponencialmente, para além do razoável, ultrapassando e muito a capacidade humana para os avaliar no momento. Tínhamos os erros grosseiros e agora passámos a ter os erros só visíveis à lupa através dos zooms televisivos, que alimentam o tribalismo e os debates incivilizados. Também aqui talvez fosse bom recorrer ao bom senso e não contribuir para a morte do futebol por excesso de realidade.

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