A luz intensa

Pedro Adão e Silva
Pedro Adão e Silva Professor Universitário

Passamos a vida nisto

Este fim-de-semana deixou-nos um retrato exato do estado atual do futebol português: os três grandes ganharam confortavelmente, o jogo mais interessante dos campeonatos europeus tinha a marca indelével do campeonato nacional, mas, mesmo assim, ninguém resistiu a apontar o dedo aos árbitros e ao VAR.

Foi por isso particularmente excecional a reação de Ivo Vieira, treinador do Estoril, após a derrota na Luz: "neste momento temos de dar paz aos árbitros. Paz. Temos de os deixar trabalhar. (...) Não vou aqui discutir decisões. Temos de ser intervenientes para ter um futebol mais saudável. Agora se estivermos sempre a questionar e a pôr em causa as decisões dos árbitros estamos a fomentar atrito no futebol." Rui Vitória acrescentaria, "passamos a vida nisto".

Talvez valha a pena pensar por que razão passamos a vida nisto, ignorando que haverá sempre erros de arbitragem, como há falhanços dos avançados, ‘frangos’ de guarda-redes e equívocos dos treinadores.

Julgo que, tirando o presidente do Porto, ninguém questiona as vantagens da introdução do VAR. Claro está que o VAR tem problemas: o protocolo precisa de ser afinado (o exemplo mais claro é, precisamente, o momento em que o jogo deve ser interrompido por fora-de-jogo assinalado pelo assistente – e que gerou a polémica no Dragão, como já havia acontecido no Sporting-Braga em Alvalade) e há muita aprendizagem a ser feita pelo árbitro e pelo VAR na forma como interagem e usam os recursos. Mas o balanço é positivo.

O que já não é nada positivo é o que era absolutamente previsível: com a introdução do VAR, a maluqueira nacional em torno das análises às arbitragens iria transferir-se do árbitro para o VAR. Com mais repetições, mais imagens, mais ângulos, mais super slow-motion, os erros de arbitragem não aumentam nem diminuem, tornam-se só mais visíveis. Até porque, garantidamente, há 30 anos, as arbitragens eram mais incompetentes e os campos bem mais inclinados, a diferença é que ficava só a imagem do momento, vista no estádio.

Mas se dirigentes, funcionários dos clubes e comentadores para quem o futebol é decidido pelas arbitragens têm muitas responsabilidades no ambiente, a comunicação social está longe de estar isenta de culpas. Com tanto futebol para ser noticiado e comentado, como explicar as notícias diárias com tweets de diretores de comunicação, posts de facebook de hooligans ou simples piadas de mau-gosto de dirigentes? Ou o que dizer das horas infindáveis de discussões televisivas sobre arbitragens (será que estas pessoas gostam de futebol?).

Passamnos a vida nisto e, entretanto, nem notamos que, no mais relevante jogo do fim-de-semana, entre United e City, estiveram envolvidos oito jogadores e um treinador que já passaram pelo campeonato português. Temo que com o rumo que as coisas levam em Portugal, daqui a uns anos este cenário seja, apenas, uma miragem de um passado distante.

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