A luz intensa

Pedro Adão e Silva
Pedro Adão e Silva Professor Universitário

Quem venceu o Mundial?

A pergunta não é retórica e tem uma resposta que vai para além do relvado. Em campo, como tem acontecido nas últimas décadas, a vitória sorriu a uma equipa que combina qualidade individual com organização coletiva. Do ponto de vista tático, a versatilidade compensou. Pese embora a justa valorização do ‘efeito Guardiola’, visível na forma como o melhor futebol, também de seleções, vive sob a influência do catalão, a verdade é que o Rússia’2018 serviu, também, para mostrar os limites do guardiolismo. Tornaram-se hegemónicas as equipas que atacam sem bola, pressionando alto, e saem em construção, a jogar desde trás, com todos os jogadores a participar no jogo e com muitos a marcarem golos (sintomaticamente, Giroud – que fez um ótimo Mundial – foi campeão do Mundo a jogar a 9, sem ter feito um único remate enquadrado). Contudo, nem sempre a posse de bola trouxe vitórias e, hoje, não faltam equipas capazes de anular o futebol tiki-taka. Mais, no Mundial como nas competições individuais, torna-se penoso assistir a equipas de fraca qualidade individual a jogar à Guardiola, enfatizando a "fidelidade às convicções", mas esquecendo o realismo que tem necessariamente de estar presente no modo como se apresentam em campo.

Tão relevante como a justa vitória da França é o predomínio crescente do futebol europeu no contexto dos Mundiais. Depois de há duas décadas muitos terem vaticinado que chegaria o dia em que uma seleção africana venceria – o que parece cada vez mais distante – e pese embora o maior número de praticantes estar na China e nos EUA, o domínio europeu é crescente, ao ponto de os últimos quatro campeões do Mundo serem do velho continente.

Há razões para isso. A Europa continua a ser a única região do globo onde as crianças crescem rodeadas por bons campos de futebol e com treinadores por perto. Como escreveu Simon Kuper de forma lapidar: "a social-democracia vence Campeonatos do Mundo". Ou seja, para vencer no futebol, há que investir, apostar na regulação, no planeamento e nos contratos coletivos como instrumento de coordenação. O acaso, a instabilidade e o improviso, mesmo que alicerçados em muito talento individual, traduzem-se em derrotas. O percurso desta França, assim como o caso notável da atual geração belga, bem como o da Alemanha e da Espanha das últimas duas décadas, prova isso mesmo.

Finalmente, o campeão do Mundo é, uma vez mais, uma equipa repleta de jogadores com muitos títulos ao nível de clubes e que, num futebol globalizado, se concentram nos dois ou três campeonatos de topo – tendo muito deles feito a sua formação noutro país que não o de origem. Num mundo em que o nacionalismo bacoco está a regressar em força, o futebol de seleções é, hoje, um espaço de pluralismo e cosmopolitismo, fomentando a pertença nacional, mesmo em nações multilinguísticas e multiétnicas.

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