Contra a corrente

Ribeiro Soares
Ribeiro Soares

Benfica, campeão anunciado à 1.ª jornada?

Em quase 70 anos – desde 1949 – a acompanhar, de perto e com especial interesse, o desenrolar dos nacionais de futebol, não me lembro de alguma vez ter tido a sensação (estranha) de haver um campeão tão precocemente encontrado como acontece esta época.

Nem no tempo dos "cinco violinos" – Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travaços e Albano, década de 50 – em que o Sporting venceu sete campeonatos (3+4) em oito épocas consecutivas, chegando aos 123 golos marcados (em 26 jornadas) e sempre acima da média de três por jogo; nem no tempo do Benfica esmagador, anos 60, bicampeão europeu e finalista mais três vezes; nem o Benfica de Jimmy Hagan (1972/73), campeão sem derrotas a completar o triplo; nem o FC Porto, penta-campeão com três treinadores diferentes (1994/95 a 1998/99) ou, anos depois, sob a batuta de André Villas-Boas (2010/11), também sem derrotas.

Sempre atento ao historial da prova, Record lembrou na edição de 2.ª feira, dia 12, a última vez que o Benfica partiu com vantagem sobre os dois rivais; foi na época de 1961/62, quando ganhou na 1.ª jornada e Sporting e FC Porto empataram os seus jogos; no entanto, apesar de se ter sagrado bicampeão europeu, ficou em 3.º lugar, a 7 pontos do campeão (Sporting) e a 5 do FC Porto, tendo sofrido 4 derrotas e 8 empates.

Mas, tanto quanto me recordo, nada que se pareça com a situação actual.

De facto, há um Benfica campeão, estabilizado, com saúde financeira, um treinador esclarecido e bem à frente do seu tempo, que perdeu dois jogadores importantes mas se reforçou com critério, quer comprando bem (fora e dentro do país), quer indo buscar ao Seixal novas pérolas do seu cabaz, que não tremem e pegam de estaca. Acresce a conquista de uma Taça internacional (de mério discutível mas sempre motivador) e duas goleadas de mão cheia nos dois primeiros compromissos oficiais em território nacional.

Diferente está o FC Porto, dizimado por falta de poder negocial para não perder metade da equipa (Militão, Herrera, Filipe, Brahimi, Oliver e talvez Casillas, por outras razões), apesar de manter o treinador, competente e ganhador, mas obrigado a refazer a equipa pela segunda vez em três anos e nem sempre estável quando as coisas não correm bem.

Já o Sporting tem sido uma completa desilusão, depois de um ano que tinha tudo para correr mal, mas que se saldou pelo habitual 3.º lugar e pela muito festejada conquista de duas taças.

Pode dizer-se que a equipa de Marcel Keizer deslumbrou na primeira dezena de jogos que fez sob a sua orientação, com pressão alta, ligação entre todos os sectores, marcações apertadas e eficácia no remate, com goleadas à mistura; era então uma equipa com 15 ou 16 jogadores, onde Bruno Fernandes era importante mas longe de ser a única vedeta.

Após os desaires de Guimarães e Tondela, com os adversários a encontrarem o antídoto para aquele jogo, Keizer terá tido receio da fragilidade do plantel e da incapacidade de manter um ritmo tão alto, passando a jogar mais pausado e cada vez mais dependente de Bruno Fernandes.

Acabou por ganhar as duas taças, com as meias-finais disputadas pelos quatro grandes, o que muito valorizou o seu percurso, abrindo naturais expectativas para esta época.

Estranho, por isso que, tendo comandado a preparação desde o início e com alguns reforços sobre quem deverá ter dado o seu aval – pesem os atrasos de vários jogadores empenhados até tarde nas suas selecções, em África e nas Américas  (e, porque não, a novela Bruno Fernandes) – a equipa ainda não tenha exibido arcaboiço físico e um fio de jogo minimamente parecido com o que julgava ser a matriz das equipas treinadas por Keizer.

Oito jogos sem qualquer vitória, 4 empates e 4 derrotas, 18 golos sofridos, apenas 9 marcados, goleada na Supertaça e tropeção na ronda inicial – são demasiados indícios que não pressagiam nada de bom, até porque se seguem dois jogos bem complicados.

Restam o Sporting de Braga, que até começou bem, com vitória na Europa e sobre um das melhores euipas nacionais da época transacta; e o Vitória de Guimarães, já com três vitórias nas pré-eliminatórias europeias e que ainda não se estreou na nossa Liga; que, a par do Marítimo e Rio Ave, parecem ser os mais apetrechados para disputarem os lugares cimeiros, incomodando FC Porto e Sporting, mas sem grandes hipóteses perante este Benfica pujante.

Oxalá nos enganemos; fazemos votos para que haja algum treinador que encontre forma de fazer o Benfica tropeçar e que tal aconteça o mais cedo possível, talvez mesmo no Benfica-FC Porto a disputar na 3.ª jornada. Se assim não for, a Liga ficará reduzida a uma indesejada luta pelo 2.º lugar, o primeiro dos últimos, como alguém disse há muitos anos.

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