Factor Racional

Rui Calafate
Rui Calafate Consultor de comunicação

O código genético do Sporting

Nestes tristes dias que abalaram a nação leonina, houve algo que me encheu de orgulho, a luz que continua a brilhar no momento negro lá do fundo do abismo: a revolta generalizada dos adeptos sportinguistas contra a violência de 50 meliantes e a repulsa clara dos evidentes indícios de corrupção que levaram à detenção de um rapaz que de vendedor de cartões bancários passou a director de futebol do Sporting.


A inusitada violência que grassou como se de um cenário no Vietname se tratasse em plena Academia, indignou a esmagadora maioria dos leões. Nós respeitamos muito as nossas claques, mas odiamos gangsters. Nós queremos ganhar sempre; porém, não convivemos com suspeitas de subornos e corrupção.


Disse a Record, na terça-feira, que a invasão de Alcochete foi o dia mais triste da história do clube, as imagens iriam correr o Mundo. Assim, era uma mancha de lama reputacional que atingiria violentamente o Sporting. Marcelo Rebelo de Sousa disse, e não o disse com gosto, que era a própria imagem de Portugal que estava vexada e, ainda por cima, poucos dias depois de um momento de comunicação de massas genial que mostrou o melhor de muitas cidades e lugares do nosso país com o magnífico trabalho da RTP na Eurovisão.

O Sporting tem um código genético de honra, de lealdade, de classe, de os atletas se baterem como leões até ao limite das suas forças para conquistarem troféus e darem alegrias à melhor massa associativa do Mundo que não merece tamanho lodaçal, vergonha e desonra. Somos únicos porque somos diferentes, na cartilha dos nossos fundadores não cabem a corrupção, nem a batota, nem a violência. Somos mulheres e homens com coluna vertebral, não vergamos na paixão pelo clube mas não compactuamos com gente que não conhece e viola o nosso ADN. Queremos ganhar porque somos os melhores, com honra, com Esforço, Dedicação e Devoção. Quem não percebe isto não pode estar na nossa família.


E houve mais duas coisas que me merecem comentário. O facto de todos os clubes portugueses não terem de imediato manifestado solidariedade com o clube vítima de terrorismo e com a equipa técnica e jogadores que sofreram na pele a acção de uns energúmenos. E uma palavra para Jorge Jesus. Todos o conhecem e também o seu lado emocional. Quando o vi sair do Ritz, lembrei-me de uma frase que Alfred Hitchcock usava para caracterizar Grace Kelly: "Um vulcão coberto de gelo." Pode errar algumas vezes, mas mostrou a frieza e racionalidade da liderança sob pressão. Como dizia André Malraux, "a verdade de um homem é, em primeiro lugar, aquilo que ele esconde". E ele soube ocultar toda a raiva e angústia que estaria a passar. Agora, no momento em que escrevo, vejo demissões em bloco na AG e no CF, vejo André Geraldes preso, Bruno de Carvalho quer processar mais gente e até atacou o Presidente da República, não sei o que se vai passar. Mas tenho uma certeza: ninguém mata o Sporting Clube de Portugal, temos boa e apaixonada gente, é uma nuvem negra passageira, o amanhã é sempre melhor do que o ontem e a grandeza de um clube é eterna.
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