Factor racional

Rui Calafate
Rui Calafate Consultor de comunicação

O meu futebol não é isto

À medida que envelhecemos a nossa memória faz-nos crer que os tempos passados eram sempre melhores. Não estou ainda a navegar nessa quase fatalista onda nostálgica, mas quando eu era miúdo e ia ao futebol com o meu pai e o meu avô também havia rivalidades, maus árbitros, roubos de igreja e descendentes de Al Capone. Porém, tudo era mais puro e não havia um insustentável ruído à volta da bola que ameaça ofuscar tudo o que verdadeiramente interessa e apaixona no desporto-rei.

O meu futebol é o do talento dos grandes jogadores e treinadores. É a consagração de Cristiano Ronaldo, com o seu filho a apertar a mão de Lionel Messi numa imagem de ouro, de fair-play, que vale mais do que todo o lodaçal de programas de debate desportivo. É Zidane, um mágico bailarino dos relvados, que se tornou o primeiro homem a ganhar o prémio de melhor jogador e, agora, treinador pela sua colossal série de títulos no Real Madrid provando que um soldado de elite se pode tornar um sensato grande general. E até nos empresários me lembro do tempo em que os clubes batiam à porta de Joaquim Oliveira – e eu sou dos que pensam que ele deu muito ao futebol português – para que ele adiantasse umas verbas dos direitos televisivos pois era a única maneira que tinham de cumprir obrigações salariais e com o Estado.

O problema é que o filme mudou e as películas são de pior qualidade. Agora, quase todos os dias há um folhetim e não é daqueles da Corin Tellado, é apenas algo sórdido. Ganharam protagonismo figuras que não estão no centro do jogo e sobrepôs-se o que gravita em torno dele. Nestas duas semanas, tivemos buscas da Polícia Judiciária no Estádio da Luz e nas casas de Luís Filipe Vieira, Paulo Gonçalves, Pedro Guerra, Adão Mendes e Nuno Cabral, três dias antes tínhamos o advogado do Benfica, João Correia, de manchete e com páginas inteiras nos jornais a dizer: "vamos atacá-los". No fim-de-semana o VAR avariou durante mais de 20 minutos nas Aves e lá se instalou de novo o clima pestilento das dúvidas constantes sobre um sistema que quando melhor explicado poderá beneficiar em muito a verdade no futebol. Já nestes dias, os árbitros anunciaram greve na Taça CTT e José Fontelas Gomes ameaçava deixar de os nomear, porque, segundo essas vozes, a pressão em torno dos homens do apito é intolerável.

No meio desta caldeirada, Fernando Gomes ainda foi ao Parlamento, serenamente, tentar acalmar as coisas e mostrar caminhos para que o mar de ódio não inunde um desporto que não merece tal crispação. Por isso é tempo de haver juízo, penalizações para quem promova a barbárie, mais contenção e respeito, silêncio e paz. Se continuar o "hooliganismo" de certas intervenções isto vai piorar e é a indústria do futebol que perde e é a paixão dos adeptos que pode ser enterrada. Que o clima melhore, porque o meu futebol não é isto.

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