Factor racional

Rui Calafate
Rui Calafate Consultor de comunicação

O pecado da comunicação

O Sporting tem inúmeros problemas e um dos seus maiores pecados é a comunicação. Tenho pela minha experiência profissional de 23 anos, primeiro, como jornalista até 2001 e, posteriormente, como responsável da comunicação da maior câmara do país, Lisboa, seguindo depois para o mundo da indústria de Conselho em Comunicação onde comando a minha empresa desde 2009, a opinião de que o verdadeiro líder comunicacional de uma organização é o seu responsável máximo, o seu presidente. É ele o condutor estratégico dos objectivos, é ele que marca o ritmo, é ele que eleva ou reduz o perfil das intervenções. Coadjuvado, isso sim, por uma equipa profissional especializada que faz a ligação com a arena mediática e, sobretudo, o deve aconselhar bem no que toca à mensagem e aos momentos de comunicação. Por algum motivo, quem trabalha na minha área intitula-se consultor de comunicação e não decisor de comunicação. A última palavra cabe sempre ao líder.

Ora, nas últimas décadas do Sporting não me recordo de nenhum presidente que percebesse verdadeiramente de comunicação nem todas as variáveis que a envolvem e, ainda por cima, muitos deles eram péssimos comunicadores. A inépcia comunicacional é endémica e isso é algo que não potencia lucros, marca, reputação, logo, resultados, sem esquecer os desportivos. Porque se há anjinhos que entendem que os campeonatos se ganham só com um treinador astuto e jogadores talentosos, podem esquecer. Para lá dos lados ocultos do futebol onde operam diversos doutorados em ‘bas-fond’, a comunicação tem ganho uma relevância importantíssima que continua a ser descuidada e cabe ao clube encontrar o caminho correcto para se profissionalizar e conquistar uma influência que nunca teve. Porque os media não estão contra nós, como soltam os amadores e ‘calimeros’, nós é que nunca soubemos seduzir e estabelecer uma relação empática com os media. Não podemos ter a percepção que imprensa e televisões nos prejudicam, isso é estar derrotado à partida, temos é de ter a sensatez de dar a volta, deixar trabalhar, ser diplomata, depois, analisaremos. Se não nos respeitarem, seremos nós a não dar seguimento às boas relações que pretendemos ter com todos os ‘players’.

A comunicação em todas as empresas, instituiçõee clubes deve ser serena, pela positiva, a puxar mais por nós e a ligar menos aos outros. Quem criou o planeta onde vivemos sabia muito mais do que nós. O céu habitualmente está sereno, mas se houver um trovão todos escutam. Que ilação retiramos disto para a comunicação? Simples: devemos ser serenos, porque se tivermos de ser mais duros e a mensagem mais agressiva ela será muito mais eficaz, será o nosso trovão, se não estivermos constantemente em desgaste de guerras algumas do alecrim e manjerona. E há duas regras de ouro na comunicação: o bom senso, sabermos o momento certo para carregarmos nas teclas suaves ou ríspidas; e ser mestre a manusear o silêncio, que pode ser cínico porque a estratégia assim o exige, e porque o silêncio é a arma mais difícil de combater e comete menos erros. Sei como ninguém que os tempos são actualmente marcados pelo ruído, tons odiosos e por extremismos pouco inteligentes. Pois é, mas estes especialistas a fazer barulho não são especialistas de comunicação. É tempo do Sporting ultrapassar este pecado original.

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