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Tem confiança insolente nas suas capacidades e a impertinência de confessá-la publicamente. Um dia, há muitos anos, afirmou que queria ser o melhor do Mundo e, em troca, recebeu sorrisos de comiseração e a convicção generalizada de que era ambição a mais para quem acabara de chegar e lutava ainda para ser alguém na vida. Desde então, Cristiano Ronaldo venceu a mediocridade e depurou a arte dos poetas de rua: estimulou o zelo na defesa intransigente do que foi conquistando pelo caminho. Para CR7 o sucesso teve a força da vingança e, por saber quanto lhe custou o sucesso, deu à prosperidade a transcendência de uma vitória impensável. Foi a bola, o talento e o trabalho que o fizeram superar outros que nasceram ganhadores.
Os desportos coletivos costumam ser pouco tolerantes com fenómenos isolados; têm reservas a peças soltas da engrenagem, que desarrumam as convicções de que o futebol se rege, acima de tudo, por métodos, processos, ideias e funcionamento global. CR7 já deu o primeiro passo para sobreviver ao conflito: convenceu a estatística com números obscenos. A noite de ontem constituiu exceção em muitos anos: perdeu para a equipa e nada lhe acrescentou. Mas nem isso altera a convicção de que não é apenas o ser divino nascido em época de uniformização; não é só património mundial, génio e fenómeno para a história do futebol; é o único profeta capaz de guiar Portugal à glória. Há quem lhe critique a insolência, os caprichos, o poder, as extravagâncias e até a independência. O ideal seria que, sendo CR7, tocasse piano, falasse francês e recitasse Camões a seguir ao jantar. Não se pode ter tudo. De uma forma ou outra, a eternidade é o seu destino inexorável.