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Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

Adrien é bênção no Sporting de JJ

Conta Fernando Peyroteo, num magistral livro de memórias, que Josef Szabo tinha comportamento recorrente: no fim de cada jogo felicitava os jogadores em função da obediência às diretrizes que ele próprio traçara. Os elogios levavam, em muitos casos, a usurpação de méritos alheios, porque a boa exibição de cada elemento era atribuída ao cumprimento das instruções. Farto de tanta indelicadeza inconsciente, Manuel Marques, o famoso Manecas, cuja irreverência chocava com a bonomia e a graça do velho treinador, cujos méritos eram inversamente proporcionais ao português com que se expressava, revoltou-se. O maior bombardeiro da história da Liga descreve assim o diálogo:

"– Então, míster, que tal joguei?

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– Tá bem; sinhor Monecas bêstial.

– Pois fique sabendo que não fiz nada daquilo que o senhor me disse! Foi tudo ao contrário e joguei bem. Está a ver?

– Cuidado! Sinhor Monecas não brincar…

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– Não estou a brincar, é a sério míster.

– Muito bem, sinhor Monecas; sinhor tesoureiro falar para sinhor final dê mês…"

Mesmo descontando o evidente exagero de Manuel Marques, cujo principal objetivo era acicatar a fleuma do velho mestre, hoje o diálogo não faz sentido. Porque o general não é ator das obras que imagina e dos sonhos que alimenta, precisa de imaginar cada batalha de acordo com os pés, a cabeça, os gestos, os movimentos, as características e a inteligência dos seus soldados. A fiabilidade com que Adrien executa o plano definido por Jorge Jesus é uma bênção para o Sporting. O médio leonino cumpre papel determinante no futebol dos nossos dias, no qual as ideias do treinador precisam de cumplicidade em campo; de alguém que interprete a sua forma e o seu conteúdo e não apenas como quem decora a tabuada. Mas o capitão vai mais longe, porque agrega à execução da tarefa a autoridade necessária para refletir a orientação superior, transmiti-la aos companheiros e sintonizá-la com a luta.

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Adrien é um jogador cada vez mais completo. Um centrocampista de ida e volta e um líder multifuncional que está a aperfeiçoar qualidades e a aumentar influência no jogo coletivo. Aproveitou os fundamentos do ensino académico para ganhar etapas na construção como futebolista e evitou as consequências nefastas de quem julga ser suficiente seguir a cartilha: não danificou o instinto, não mutilou a imaginação, manteve o prazer de jogar e soube valorizar a liberdade para, seguindo o guião, inventar soluções personalizadas em cada momento do jogo. É essa abrangência que o torna especial, porque exerce atrás, à frente e ao meio; a defender, a atacar e a organizar; como comando preparado para qualquer missão de risco, incluindo as mais ousadas, e como artista capaz de conceber quadros valiosos que outros lapidam.

Diz Johan Cruyff que qualquer um, com cinco metros para dominar a bola, pode jogar futebol. A arma de Adrien é essa: encontra sempre esses cinco metros de que fala o génio holandês. Pode estar no meio de trânsito congestionado, em zonas de altíssimo risco, entre adversários sem pudor para o travar, que arranja instantaneamente forma de iludir a escassez de espaço e a pressão tantas vezes sufocante. Sai normalmente ileso desses apertos, com a bola colada aos pés, abrindo amplo horizonte de opções. E escolhe quase sempre a melhor. Aliás, é a complementaridade entre o conhecimento das regras coletivas do jogo (sentido posicional, tempo de entrada aos lances, coordenação das ações sem bola e medição perfeita dos perigos circundantes), o talento para fintar com eficácia as armadilhas espalhadas por todo o campo e a visão para organizar e diluir as contribuições individuais no todo que é a equipa que fazem dele um jogador especial. Uma das maiores estrelas da Liga 2015/16.

Mitroglou e o golo de Jonas

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O raciocínio normal do ponta-de-lança nem sempre é o mais sensato

Jonas revoltou-se quando apontou o golo ao Arouca, isto é, não usufruiu da felicidade que é cumprir a missão de avançado. Compreende-se o incómodo de reagir mal a um momento bom: o máximo goleador da Liga estava em melhor posição para concluir o lance iniciado por Mitroglou, que não lhe deu a bola. O grego não fez por mal e agiu como especialista que é: na iminência do golo só viu a baliza.

José Peseiro tem muito para fazer

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O FC Porto mostrou-se ao novo treinador muito abaixo do que seria de esperar

Layún e Brahimi são espíritos livres e têm talento a mais para fazerem do jogo combinado o ponto forte de cada um. Com o Marítimo, o perigo relativo criado no flanco esquerdo foi através de ações individuais avulsas e nunca em lances concertados. Maxi e Corona estão um passo à frente nesse capítulo. Na ausência de um 10 e sem substituto à altura para Jackson, José Peseiro tem muito trabalho pela frente.

Adeus prematuro de Duarte Gomes

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Tinha tudo para ser o expoente do seu tempo e um dos melhores de sempre

Duarte Gomes despediu-se da arbitragem e deixa um legado interessante mas desconfortável: tendo atingido patamares de excelência, podia ter chegado ainda mais longe. Sem lesões e alguns exercícios narcísicos que fazem parte da atividade, nenhum outro juiz superou o seu saber, o seu instinto, a sua capacidade para gerir situações de conflito, impondo-se por diálogo e bom senso. Vai fazer falta ao futebol.

Por Rui Dias
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