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Já lá vai o tempo em que o guarda-redes era o homem que comandava, coordenava e orientava toda a manobra defensiva dos exércitos que representava. Hoje, mais do que isso, tem responsabilidades na organização, na cadência, no ritmo e na forma como o coletivo se balanceia para o ataque. Antes, a função só lhe exercitava o corpo, hoje é posto à prova na inteligência, na visão e em decisões pelas quais passam algumas das bases ideológicas do treinador: jogar curto ou longo; com os pés ou com as mãos; com saídas laterais ou frontais; introduzindo pausa ou aceleração. Ederson tem soluções táticas impressionantes, desde logo a potência e precisão do remate com o pé esquerdo, que permite à equipa acomodar-se do outro lado do campo no momento da reposição da bola em jogo. E isso de preocupar o adversário de cada vez que executa um pontapé de baliza tem muito que se diga.
Quem havia de dizer, há um mês, que o miúdo oriundo do Rio Ave havia de atuar em Alvalade e Munique como se estivesse a jogar na rua dele e relativizar a ausência de Júlio César? Ederson já digeriu quase todo o veneno da juventude; moderou os ímpetos de uma presença excessiva e chamou a si os valores de lucidez, visão e sobriedade; não revela qualquer gosto pelo adorno e pelo protagonismo nocivo, antes alicerça todo o comportamento com primoroso sentido de eficácia e antecipação dos acontecimentos, razão pela qual não vive na dependência de milagres. E não se deixa seduzir pelas aventuras próprias da idade: prefere orientar-se pela serenidade absoluta de quem governa a sua zona por terra e ar, como se tivesse nascido debaixo de uma baliza. Outro dos seus segredos é transformar em virtudes os aparentes defeitos: é alto, pesado e parece indolente? A isso responde com reflexos felinos e agilidade surpreendente.
Contra o senso comum das previsões, afastou logo as angústias próprias do momento. Simplesmente entregou-se à tarefa que o esperava e declarou independência em relação às eventuais interferências vindas de fora – as dúvidas, os assobios, os medos, as recriminações… Abandonou a posição confortável como suplente de um mito sem fim à vista (apesar dos 35 anos do Imperador) e diminuiu o tempo que dera a si próprio para preparar a afirmação. Teve então um acordar violento, pressionado por defender a baliza da águia na véspera do dérbi em Alvalade. Ederson foi perfeito no primeiro impacto, sabendo que, a partir do momento em que entrasse em ação, de nada lhe valia a juventude, ser bandeira de esperança e a promessa de um futuro glorioso. Os adeptos, por mais condescendentes, não vão ao estádio para saber o percurso ou perguntar a idade dos jogadores; exigem apenas que sejam competentes e contribuam para a felicidade coletiva.
Ederson revelou qualidades superlativas até chegar ao Benfica. O que tem feito, em tão pouco tempo, como guardião de um dos templos mais sagrados do futebol português e europeu permite-lhe dar resposta ao conceito mais nobre da função que desempenha: ser guarda-redes de grande equipa, esse fator que distingue os bons dos melhores, os extravagantes dos fenómenos que entram na história do futebol. Não é normal, aos 22 anos, ser posto à prova sem aviso prévio e dar resposta tão brilhante e inequívoca; poucos são os jovens que trocam o conforto do banco pelo inferno da baliza e agem com a sabedoria, a tranquilidade, o estofo e a segurança de um veterano. Ederson confirmou talento face às exigências que, de uma hora para a outra, pesaram sobre os seus ombros. Não é para todos essa capacidade isoladora do exterior (adeptos, treinador, companheiros e imprensa) e ser igual a si próprio, num processo que também o consolida como homem preparado para qualquer eventualidade. E isso também o credibiliza como enorme guarda-redes.
William a jogar como nunca
De Alvalade surgem boas notícias para o Sporting e para o futebol português
William Carvalho está a jogar como nunca nesta época. Recuperou os índices de confiança e com eles assimilou na totalidade aquilo que Jorge Jesus lhe pede. Tornou-se implacável nos duelos, correto nos posicionamentos, seguro nas decisões que toma e ainda alargou a influência a todo o terreno. Com o Marítimo, em jogo em que o Sporting passou por dificuldades, foi dele o primeiro impulso para a vitória.
P. Ferreira foi equipa perfeita
Sim, o FC Porto perdeu na Mata Real; mas o jogo foi ganho pelo P. Ferreira
Jorge Simão estava eufórico. E havia boas razões: a equipa tinha sido mais do que perfeita na aplicação da estratégia e cumprira o plano sem falhas. Os jogadores foram sublimes no modo como deram inteligência, físico, pulmão e alma à ideia do treinador. Mas fizeram mais: acrescentaram um golo que não fazia parte das prioridades. O P. Ferreira sabia tudo o que o adversário ia fazer e não lhe deu hipóteses.
A educação de Miguel Leal
Os erros são legítimos – o pior é quando prejudicam sempre a mesma equipa
Iuri Medeiros marcou um golo, anulado quando tinha quatro (!) adversários a pô-lo em jogo; Vítor Gomes desarmou Stojilkovic sem lhe tocar e André Moreira assinalou penálti; o mesmo jogador, em lance idêntico, viu o segundo amarelo e foi expulso. Os erros foram grosseiros, inconcebíveis a este nível. No fim, Miguel Leal mostrou que, para lá de excelente treinador, é um homem sereno e educado. Parabéns.
Por Rui Dias