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O futebol não é uma expressão de arte a preto e branco, analisada e entendida sob o ponto de vista troglodita de quem o vê e discute a partir da soma de títulos conquistados. Para os profetas do momento só há duas espécies de treinadores: os que vencem e os que perdem, raciocínio primário que não contempla a hipótese, tantas vezes verificada, de estar o Mundo pejado de ganhadores medíocres e de competentes com êxito adiado. Para gente sem memória, o desrespeito está autorizado: no futebol não falta quem recuse olhar para trás, falhando o enquadramento de grandes figuras em maus lençóis, recusando-lhes o direito de fases menos boas em percursos que falam por si. Na verdade, os treinadores dividem-se entre os que têm convicções e as põem à prova e os que apostam na sorte e rezam à virgem para salvar a pele. A esse nível, Jorge Jesus e Rui Vitória estão a salvo. Sempre estiveram, mesmo quando tinham o currículo vazio de sucesso.
JJ enriqueceu a bagagem, escolheu o estilo e definiu um plano; traçou um rumo, convenceu os jogadores e fez-se à estrada; muniu-se com mensagem de bom gosto e acreditou no trabalho até à insolência. Recusou sempre negociar conceitos, deu luz verde à inspiração e ao sonho, estimulou a liberdade e fez do treino uma fonte de prazer, na certeza de que as lições diárias de Alcochete servem para melhorar a produção de todos e cada um. Em Alvalade, venceu uma Supertaça em dois anos mas já ultrapassou o patamar da dúvida legítima, porque o sucesso nunca foi a quimera de uma nação desconfiada – pelo contrário, muitos o entendem como fim inexorável de um projeto à procura de expressão ganhadora. JJ é, ele próprio, uma flor de esperança para o sportinguismo. Apesar dos erros de avaliação, cálculo e perspetiva cometidos nesta época, há uma carga profética no discurso firme e ambicioso. E na competência do trabalho diário.
RV sublevou-se ao destino. Herdou um império de conquistas e afetos com o nome do antecessor e teve arte para adaptá-lo aos seus conceitos, sem prescindir da base que sustenta as grandes comunidades desportivas: títulos e respeito pelo legado centenário, no caso o mais ganhador dos clubes portugueses. O míster do tri assimilou o ADN da pátria e desenvolveu a caminhada com saber, sentimento e paixão; aglutinou a família com um discurso certeiro, que fala ao coração dos adeptos, e nunca se lamentou das dificuldades. RV deu virtude ganhadora ao novo projeto encarnado, validando com convicção a ideia de um laboratório ‘CSI: Seixal’ que equilibrou as contas do investimento. O Benfica chega a Alvalade na condição de tricampeão nacional, líder do campeonato com 3 pontos de vantagem e com boas razões para alimentar o otimismo.
O dérbi é uma fábrica de sensações levada ao extremo. Lá estarão o amor, o ódio, a paixão, o desespero, a revolta e até a vingança; um cocktail de emoções que interfere com a felicidade, a tristeza, a esperança e a frustração de cada um, definidor de estados de alma que passam por euforia e depressão – é um grande acontecimento social, de importância transcendente na vida do país e das pessoas. As bancadas de Alvalade estarão repletas de adeptos fiéis pelas memórias de infância, pela busca de uma identidade, pela catarse social e pela atitude de quem pretende associar-se aos ganhadores.
O O Sporting-Benfica não apagará a realidade cruel do dia-a-dia mas vai criar outra que, sendo mais insignificante, vai atravessar os cidadãos de um lado ao outro. Muitos não atribuem ao futebol força e significado para interferir de modo vincado na vida dos povos. Quem estranhar que, às 20.30 h de sábado, o país vai agarrar-se à TV, jogando por delegação um duelo que o preenche da cabeça aos pés, indiferente a tudo o resto, lamento dizê-lo, mas percebe muito pouco (ou nada) do Mundo que o rodeia.
Quem andará atrás de quem?
O maior fundamento para antever o dérbi é perspetivar quem vai ter a bola
Boa parte do dérbi vai jogar-se nas faixas laterais. Se os extremos benfiquistas (quaisquer que sejam) têm talento para explorar as debilidades defensivas de Schelotto e Jefferson, do outro lado tudo pode acontecer: a qualidade de Gelson e o estado de graça de Bruno César medirão forças com a segurança atrevida de Nélson Semedo e Grimaldo. O segredo está em saber quem vai andar atrás de quem.
Rafa pode ser chave do jogo
É bastante natural que o Sporting assuma a maior parte da despesa do duelo
Rafa é um eterno caso na Luz. Começou no preço, prosseguiu com uma lesão prolongada e com o tempo excessivo passado na sombra de Cervi e Zivkovic, até Rui Vitória expressar a confiança dando-lhe a titularidade nas últimas semanas. O ex-bracarense atravessa grande momento de forma e tem o perfil técnico ideal para ser figura em jogo no qual poderá encontrar o que lhe falta habitualmente: espaço.
Alan Ruiz é hoje um indiscutível
Venceu todas as desconfianças e foi esclarecendo as dúvidas generalizadas
Alan Ruiz ganhou o longo despique para parceiro de Bas Dost no centro de ataque leonino. O argentino demorou a afirmar-se: por estilo (precisou de dar intensidade ao seu futebol) e pela realidade que encontrou (foi-lhe difícil adaptar-se e lidar com a forte concorrência). Tornou-se indiscutível pelo talento na zona de definição e pelo enlace que faz com os médios. Acaba como um dos craques da equipa.