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Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

Neymar reinventou o samba

O futebol será sempre cultura, porque a ele corresponde um modo de ser, uma sensibilidade, um estilo e uma história. Por isso os povos exigem que os jogadores atuem de acordo com a sensibilidade e a estética dos lugares onde nasceram, cresceram e se fizeram homens; por isso desconfiam quando a proposta colide com esses valores identitários, às vezes mesmo quando ganham. O problema é o crivo do tempo que avançou para a uniformização. O Brasil, berço de alguns dos mais extraordinários futebolistas de sempre, começou por aceitar as regras do negócio (alimentou a loucura dos magnatas europeus, que foram perdendo a cabeça pelos tesouros silvestres oriundos do outro lado do Atlântico) e subverter, a seguir, a lei natural das coisas (trazê-los de volta, domados no talento, no instinto e na imaginação).

A seleção brasileira adulterou o código genético. A reserva espiritual do futebol que, nas últimas seis décadas, logrou vitórias grandiosas (desde logo cinco títulos mundiais) sem renunciar a elementos que lhe correm nas veias como alegria, sonho e criatividade, convenceu-se de que a glória dependia não da magia mas de controlo, intensidade, organização, disciplina e sentido tático. Há muito que os selecionadores canarinhos lutam convictamente por formar equipas estritas, fiáveis, organizadas, de corte europeu; exércitos que sendo compostos por soldados sublimes estejam aptos a manejar valores italianos, alemães ou ingleses.

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Neymar é o motor de arranque de um ciclo que está a devolver o Brasil às origens e é herdeiro de uma dinastia rara de tão grandiosa: culmina 70 anos de história, iniciada em Leónidas e que prosseguiu com Didi, Garrincha, Pelé, Zico, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Kaká e Ronaldinho Gaúcho. Neymar chegou a Barcelona como cavalo selvagem magistral e a escola de Camp Nou não lhe cortou a liberdade, antes ensinou-o a utilizá-la; nunca pretendeu alterar-lhe o perfil, apenas o educou dando-lhe inteligência. Iniciada a quarta época ao lado de Messi e companhia, tem a dimensão de um Bola de Ouro. Aliás, já visita com regularidade o patamar divino de CR7 e Léo, onde se prepara para viver sozinho, seguindo o curso natural do tempo – tem apenas 24 anos, contra os 31 de Ronaldo e os 29 de La Pulga.

Mas para reinventar o samba conta ainda com o apoio de duas peças fundamentais: Philippe Coutinho e Gabriel Jesus. O maestro do Liverpool, também aos 24 anos, é a prova de quem interpretou os ensinamentos da universidade europeia: adaptou talento natural às necessidades mas recusou contribuir para a estatística de um país que vende diamantes valiosos às grandes ligas europeias para depois importar, através desses mesmos jogadores, a ideia repressiva que retira brilho ao futebol sumptuoso que o identifica. Coutinho é protagonista de um grande espetáculo mas sabe que está no meio de um jogo; sendo genial, aprendeu a ser pragmático e a valorizar o resultado. Gabriel Jesus é um extraterrestre que, em breve, será fenómeno à escala planetária. O menino de 19 anos que o Palmeiras vendeu ao Man. City por 32 milhões de euros é a peça final de uma equipa que pode dominar o futebol mundial nos próximos anos.

O novo escrete, liderado pelo génio arrasador de Neymar, que já contagiou os milagres genéticos que são Coutinho e Jesus, está a recuperar cumplicidades universais geradas por fantasia, talento, paixão, aventura, elegância e até alguma irresponsabilidade. O Brasil de Tite remeteu para a génese; recriou a dinâmica e travou a delapidação do tesouro em forma de estilo assombroso que levou décadas a construir e a consolidar. Os 3-0 à Argentina de Messi, as seis vitórias nos últimos seis jogos e a exaltação do povo à volta de um dos seus patrimónios mais valiosos (o futebol e a seleção) são um bom indicador do que aí vem.

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Antes e depois de Quaresma

Quaresma levou longe de mais a expressão do talento e a influência do seu futebol genial na Seleção. De tal forma que pode dizer-se, mesmo com algum exagero, que se Portugal bateu a Letónia por 4-1 a ele o deve. Houve um jogo pastoso e sem soluções até ele entrar em ação e outro feito de esperança e soluções mágicas depois de ele entrar. A bênção é Harry Potter sentir-se confortável a sair do banco.

A diabolização de Herrera

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Herrera foi diabolizado no último clássico quando, na compensação, tentou ganhar um pontapé de baliza e ofereceu um pontapé de canto. Desde então, muitos abordaram o jogador mexicano como se este, em ato tresloucado, tivesse agarrado a bola com a mão na grande área e provocado um penálti. Nesse jogo, o Benfica beneficiou de nove cantos e os oito anteriores acabaram em nada. É só para enquadrar.

Rúben Semedo pronto a avançar

Rúben Semedo já deu sinais mais ou menos seguros de que será o primeiro elemento a alargar o número de centrais da Seleção Nacional. Porque é ainda muito jovem (22 anos) tem sido afetado, aqui e ali, pela imaturidade traduzida em alguns erros de avaliação e intervenção no jogo. Fernando Santos continua a deixá-lo sob as ordens de Rui Jorge. Enquanto tiver Pepe, Fonte e Bruno Alves faz ele muito bem.

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Por Rui Dias
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