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António Castro Gil (1929-2003), o galego que comandou o futebol do Fluminense em meados dos anos 80, recordava com frequência um dos episódios que marcou o seu consulado à frente dos tricolores. A equipa liderava o campeonato brasileiro (1984), sob o comando do treinador Carbone, quando tomou a decisão de destituí-lo pela falta de qualidade do futebol apresentado. Na manga tinha o acordo com o amigo Carlos Alberto Parreira, que considerou toda a vida o melhor treinador que conheceu. Poucos entenderam essa decisão de risco. Gil respondia com perguntas: "Saiu à frente do campeonato? E depois? Queriam que o demitisse quando começasse a perder?" A conversa só fazia sentido com a conclusão da arriscada manobra: o Fluminense foi campeão do Brasil. E Gil chegou ao fim dos seus dias convencido de que aquele título tinha-o ganho ele, ao trocar "um incompetente por um mestre do futebol".
Num clube com personalidade tão vincada, história tão rica e exigências plásticas tão definidas, é impossível alterar a sensibilidade, mudar o gosto e contrariar os genes agregadores de domínio, vitória e beleza. O maior problema de Julen Lopetegui no FC Porto não foram os resultados; o que degradou as relações internas foi a evidência de a equipa jogar cada vez menos; da falhada transformação de um exército todo-poderoso em pelotão estrito, disciplinado e sem paixão. Os alicerces da ideia inicial e a orientação do projeto futebolístico foram sofrendo sucessivos abalos até danificarem a cumplicidade generalizada entre todas as partes da equipa. No futebol, como na vida, só acreditando no líder (e que ele o perceba sem equívocos) a equipa reúne condições para funcionar em pleno. Nos últimos meses, JL teve dificuldades em transmitir o que desejava e os jogadores foram desconfiando do rumo que lhes estava a ser dado.
Pelo que fez em 2014/15 e pelos poderes quase absolutos que lhe concedeu depois de um ano sem ganhar, Pinto da Costa foi o último a convencer-se de que a causa estava perdida. Não era preciso fazer como António Castro Gil no Fluminense de há 32 anos: bastava-lhe seguir o senso comum e assumir o divórcio no verão de 2015. Um treinador pode sobreviver a guerras com jornalistas, árbitros e rivais - é até recorrente unir as tropas à volta de inimigos exteriores. Mas raras equipas resistem ao comando de capatazes implacáveis, que perdem o fio condutor da pedagogia e só servem para dar ordens e punir erros. Mesmo com plano definido, tática escolhida e adversário estudado, o jogador entrega-se à aventura de dar concertos sem partitura, prova de que ao futebol é preciso inventá-lo a cada instante. No dragão de Lopetegui cresceu o medo de falhar, elemento inibidor da livre expressão de cada um. E isso revelou-se fatal.
O FC Porto 2015/16 tornou-se um corpo autónomo do cérebro do treinador. Perdeu-se a ligação entre as opções de um e as decisões de outros, porque se quebrou a corrente de compromisso e afeto; a equipa inibiu-se na liberdade necessária ao processo criativo e desativou boa parte do orgulho que transforma o esforço num exercício de prazer. Já pouco restava do esquadrão que, mesmo sem conquistas, encantou os adeptos com um futebol de exaltação perpétua; que se atreveu a mostrar o belo como elemento da vocação vitoriosa; que deu eficácia à decisão de agarrar-se à bola e fazer dela o centro do Mundo; uma equipa que libertou receios e encontrou motivação e talento para criar e ser feliz até à goleada em Munique (1-6) e ao empate na Luz (0-0) que lhe mataram os sonhos. JL falhou como treinador mas principalmente como avaliador do meio que o rodeava; não saiu diminuído no saber mas derrotado pela má gestão do grupo e pela convicção de que estava acima do bem e do mal. No fim, nem o apoio do presidente o salvou. Tinha,há muito, o destino traçado.
Fejsa encheu
a Choupana
Na Madeira, o Benfica foi mais do que os três golos apontados por Jonas
Fejsa encheu o campo. Se o brasileiro foi assombroso pela expressão dada ao resultado, o sérvio foi o porto de abrigo da equipa e o seu ponto máximo de equilíbrio. Uma grande surpresa, não pelo talento que tem mas pelas vicissitudes físicas que lhe travaram a afirmação. Na Choupana, esteve em todo o lado e fez o que lhe competia em todas as circunstâncias. Jogando a este nível é um dos melhores médios da Liga.
Adrien está feito
um médio de topo
Quando chegou à Luz, JJ disse que o Benfica iria jogar o dobro. Ou mais
Adrien é bom representante de um processo similar na chegada de Jesus a Alvalade. O Sporting não estará a jogar o dobro mas a produção da equipa é muito superior à de anos anteriores. O capitão leonino está feito um médio de topo: completo, eficaz atrás, preponderante no meio, decisivo à frente. Mas não é só ele: Jefferson e João Mário nunca jogaram tanto, Slimani está a marcar mais do que nunca…
Rafa vai ser
um caso sério
Há momentos em que um jogador mostra potencial mesmo sem ser eficaz
Rafa assinou em Alvalade exibição que o identifica como jogador de grande nível. A velocidade, com e sem bola, não lhe retira coordenação motora, nem discernimento para tomar as melhores decisões. De cada metro que lhe é concedido ele faz um latifúndio para expressar o talento. Marcou um grande golo, inventando espaço onde não existia, e falhou outro na cara de Rui Patrício. Vai ser um caso sério.
Por Rui Dias