No futebol, as situações de conflito em casa própria existem e sempre existiram. Não é de hoje que entre artistas e plateia cresce uma relação próxima, nem sempre consensual, que gera negócio no qual cada um dá o que tem. O diálogo pressupõe comunicação de ida e volta instantânea porque, se uma parte oferece talento, a outra riposta na hora com afeto. O eterno problema reside no facto de as reações emocionais das massas não assentarem no conceito de lealdade, porque os adeptos dão largas a impulsos passionais de circunstância, logo muito voláteis relativamente à necessária coesão da família – razão pela qual o ator deve agir com o mesmo sentido do imediato. Não devia ser assim mas é: se acerta recebe em aplausos, se falha é pago em assobios ou mesmo insultos. Nunca ficam contas por pagar, porque as plateias não permitem que ninguém fique a dever.
Há pouco mais de um ano, Herrera foi condenado ao degredo pelo tribunal azul e branco, com argumentos insultuosos para com a inteligência e que configuravam um verdadeiro sacrilégio: à 10.ª jornada (a 24 do fim), ofereceu um pontapé de canto sem sentido (não um livre em zona frontal, um penálti, um autogolo…), do qual nasceu o empate benfiquista no Dragão – uma cabeçada de Lisandro López no coração da área. No que restou da Liga, e ainda foram sete meses, o FC Porto teve a liderança à mercê em várias ocasiões, todas desperdiçadas sem qualquer responsabilidade daquele que foi o réu conveniente desse clássico de 6 de novembro de 2016.
Herrera dá ao treino a importância que merece; é futebolista de manhã, à tarde e à noite, sete dias por semana; conhece o meio em que está inserido; não tem medo da bola e decide sempre em função das necessidades da equipa. Em época na qual o jogador se tornou figura pública apetecível como elemento de um imenso universo de interesses mundanos, continua a recusar o folclore mediático e a fugir dos favores da imprensa cor-de-rosa, sacralizando o futebol pela única via que o respeita e engrandece: a camisola, o balneário e o jogo.
Não tem qualquer vocação teatral, nem desenvolveu a cultura do engano para lá do estritamente necessário. É jogador da cabeça aos pés e um homem tão dedicado à profissão que se revela impenetrável a agressões do exterior. Por ser íntegro recusou tornar público o pensamento quando se tornou alvo da inclemência alheia. Não era uma questão de hipocrisia mas de autenticidade, tendo como linha orientadora a defesa dos superiores interesses da equipa. Encetou então uma longa travessia do deserto, vivendo o dia a dia sob a tortura de recriminações várias, da dúvida e, mais relevante, da convicção generalizada de que o seu tempo no Dragão chegara ao fim. Só um homem impermeável a agressões, mesmo sem sentido, é capaz de canalizar a revolta para o silêncio e um comportamento exemplar, na certeza de que justiça seria feita. À vista ficou o orgulho de quem entende o futebol como a coisa mais importante da existência.
Um ano depois, Herrera não recuperou apenas o lugar no onze; dimensionou a influência ao ponto de merecer a distinção que é envergar a braçadeira de capitão do FC Porto. A sua liderança tem as marcas do exemplo que contagia os companheiros e tranquiliza o treinador. É um jogador completo, que satisfaz os requisitos de estrela e gregário; deslumbra com a arte da surpresa e é perfeito a cumprir o senso comum; preserva a inteligência e satisfaz a estatística; respeita as emoções mas não perde de vista a eficácia. Conhece todas as chaves coletivas do jogo e funciona como óleo da máquina que Sérgio Conceição está a construir; melhora a sua performance global e é a trave-mestra que lhe dá consistência e organização. Pode não ser um génio, nem ter os dotes artísticos das estrelas; mas é o maestro perfeito para o que interessa: a condução da orquestra azul e branca.
Grande resposta de Bruno Varela
Bruno Varela viveu momentos difíceis depois do erro no Bessa, e que valeu a derrota ao Benfica. O regresso à baliza fez-se na Taça de Portugal e prosseguiu na Liga. Em ambos os casos agiu como se não tivesse cometido qualquer falha e nunca tivesse abandonado o lugar de guarda-costas da águia. Isto não faz dele melhor guarda-redes mas revela que está a graduar-se como homem maduro e responsável.
Mathieu a fazer época notável
Mathieu parece descoordenado mas tem ótima relação com a bola; denota uma aparência pesada e lenta mas revela velocidade impressionante e tempo de reação notável; sugere um jogador estrito mas todos os gestos assentam em técnica individual superior. Apesar dos 33 anos e de já ter entrado na reta final da carreira, tem sido comprometido, desejoso de mostrar serviço. Está a fazer uma época notável.
A influência de Nakajima
Nakajima é um avançado elétrico, sempre ligado ao jogo e à corrente, que dura até ao último instante. Mas não sejamos redutores com um jogador cujo valor está muito para lá de dinâmica, intensidade e entusiasmo. A essas armas contundentes é preciso acrescentar o talento, a articulação motora, a visão e a íntima relação mantida com a bola e com o golo – e não apenas como especialista do último toque.