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Não tem a magia instantânea e a variedade de truques de outros extremos que, orientados pelas linhas (lateral e de fundo) se lançam à estrada sem itinerário definido: Gelson Martins surpreende menos pelas invenções e mais pela perfeição com que executa o senso comum – é incrível o modo como abdica da mentira e, sem promover o engano, consegue ser tão útil e eficaz. Num campeonato com Brahimi, Zivkovic, Cervi e Corona, ele pertence mais à estirpe daqueles cujo talento tem mais a ver com a gestão da velocidade e o uso da cintura para limpar adversários da frente. Como Salvio e Carrillo, por exemplo, é mais rectilíneo e não perde tempo com truques; pega na bola, vai direto ao assunto e tem no jogo o efeito de um furacão. Mais à frente, afastados os carrascos que estão ali para o anular, revela alguns dos elementos mais extraordinários do seu reportório: a inteligência para tomar as melhores decisões e o talento para executar na perfeição.
Anda há perto de um ano a semear esperança em Alvalade com fantasias só ao alcance dos grandes intérpretes. O seu futebol enleante, rico, veloz e diversificado é um constante milagre de clarividência que contagia o coletivo; o jogo pode não estar a correr bem e a inspiração andar arredia do exército de que faz parte; mas ele nunca se queixa: rema contra a maré à custa de explosões apocalípticas que levam tudo à frente e provocam sucessivas catástrofes no adversário. Essas cavalgadas são, igualmente, verdadeiras tempestades de sensações para quem vai ao estádio com interesses para lá do resultado. GM tem sido um sol de lucidez e clarividência nas muitas sombras que deram forma ao desvario leonino em determinada fase da temporada.
De perfil discreto, escuda-se numa irreprimível timidez. Mesmo sem querer, é tão grandioso que obriga os holofotes a procurarem-no; ele preferia jogar como gosta, consagrar-se como homem feliz e invisível. Sim, chega a parecer um fantasma que restaura sonhos a desfazerem-se mas artistas assim, que são bons presságios do bom que está para vir, estão sempre no centro das atenções. Para ele, até as etapas mais simples do quotidiano podem ter algo de sobrenatural; não só pela magia do engano mas, principalmente, pela perfeição com que sintetiza velocidade, potência, articulação, habilidade, visão e técnica. No resto, todas as circunstâncias são boas para interferir na história: faça chuva ou sol; em clima de guerra ou paz; na prosperidade ou na desgraça; em casa ou fora; com ajuda de outrem ou em quadros solitários.
A questão à volta de GM não é ser um transgressor de planificações milimétricas; nem de adulterar com improvisações impertinentes o rigor considerado inalterável dos guiões definidos; ou acrescentar façanhas fora do programa que servem para travar os momentos de crescente inquietação nos quais as equipas caem por vezes. O enorme problema que o evidencia perante o futebol é outro: ao fim de sete meses, a imagem de prosperidade momentânea de um jovem com muito para dar evoluiu para a certeza de um génio raro, capaz de conciliar talento e regularidade. É um luxo vê-lo assinar por jogo cinco, seis, dez lances que outros, também credenciados, não se importariam de fazer uma vez na vida.
Já deixou para trás a suspeita de ser um fenómeno efémero, que chegou, assombrou plateias e escondeu-se; está muito para lá de uma estrela esporádica que nos despertou os sentidos e desapareceu de cena. É um jogador tão grande, com futuro tão esplendoroso, que nem os sempre atentos vampiros do mérito alheio vão conseguir beliscar. GM lançou a época com a consagração na grande sala de espetáculos que é o Bernabéu; tem consolidado o estatuto de melhor futebolista da Liga portuguesa; prepara-se para chegar ao fim como um dos melhores extremos do Mundo.
As vantagens
do especialista
Di Stéfano disse um dia que jogava em qualquer posição menos a extremo
D. Alfredo acentuava a ideia de que a função, de tão peculiar, devia ser atribuída a um especialista. No FC Porto a discussão passa por saber se André Silva deve juntar-se a Soares. Há bons argumentos para uma e outra opções. Mas se juntá-los passa por fazer derivar André Silva para um dos flancos, não vale a pena. Ao fim de uma hora entra Corona e percebemos tudo quanto Di Stéfano queria dizer.
Exibição de Jonas
com o Moreirense
As visões de treinadores, jornalistas e adeptos nem sempre coincidem
Jonas esteve em dúvida para Moreira de Cónegos. Rui Vitória acabou por escolhê-lo, dando-lhe tarefa pouco habitual: afastou-o dos terrenos onde costuma cobrir-se de glória e colocou-o entre a esquerda e o meio, dando mais amplitude de movimentos a Rafa. O artista foi irrepreensível na execução do que lhe foi pedido (ótimo para o treinador) mas assinou hora e meio sem brilho (e os adeptos reclamaram).
É preciso tê-lo
debaixo de olho
São muitos os jogadores nacionais que se afirmam sem passarem pela Liga
Bruno Fernandes, formado no Pasteleira e no Boavista, chegou ao topo em Itália, num percurso que passou por Novara, Udinese e Sampdoria, clube do qual é camisola 10 e titular indiscutível. Capitão da Seleção de sub-21, está a jogar como um iluminado. Frente à Fiorentina (2-2) elucidou os distraídos: fez 1 golo (5 na época), jogou muito e confirmou que é um médio especial. Não podemos perdê-lo de vista.