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Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

O futebol visto por Bruno César

Tem cara de cidadão comum, calvície precoce que lhe retira o benefício da dúvida pela pinta e um físico global irreverente para futebolista – vive sob eterna (e muitas vezes injusta) acusação de ter mais quilos do que deve. O aspeto, porém, não pode interferir na avaliação que dele fazemos: a inestética figura é apenas o disfarce de uma inteligência assassina, que pode, a qualquer momento, fazer explodir um monte de soluções criativas armazenadas num reportório vasto e variado. Estimulou ainda a visão com que alimenta o senso comum do jogo e depurou espírito competitivo tremendo, elementos que lhe deram perfil de polivalente, essência para a qual Jorge Jesus está a contribuir como ninguém.

Nem sempre essa capacidade para desempenhar vários papéis na mesma peça valoriza os atores no conceito global que deles fazemos; nem sempre a generosa contribuição que o realizador agradece é compensada com o reconhecimento das plateias; é mesmo normal que jogadores muito versáteis no domínio de várias tarefas terminem por saber um pouco de muita coisa sem conseguirem saber tudo sobre uma função específica. Acusação cruel para Bruno César que tem confirmado utilidade extraordinária nas várias missões que vem cumprindo. Mais ainda, em qualquer delas ninguém o superou no Sporting 2016/17: lateral-esquerdo (apesar de Vila do Conde), médio-esquerdo e médio-centro. A questão mais relevante, porém, é o que faz próximo de Bas Dost.

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Jesus já experimentou Alan Ruiz, André, Markovic e até Castaignos mas é de Bruno César a melhor prestação da época no apoio ao ponta-de-lança – jogo tremendo no Bernabéu. O ideal de JJ é ter um avançado a desempenhar esse papel, como fez com Saviola, Rodrigo, Jonas ou Teo Gutiérrez, cuja movimentação assenta no conhecimento do espaço, nos seus segredos e na impiedosa contundência finalizadora; mas se não tiver esse atacante complementar tem de escolher elemento com outras características para pôr a máquina a funcionar e dar saída à criatividade vinda de trás. É esse instrumento para melhorar o jogo ofensivo e aumentar as probabilidades de chegar ao golo que Bruno César pode ser e Markovic não tem sido.

BC tem a energia frenética dos grandes avançados e a habilidade dos melhores centro-campistas; tudo nele é intensidade, poder de síntese e clareza nas intenções; o passe é ofensivo, o drible não é recreio e a aproximação à baliza costuma ser um épico para quem ataca e um filme de terror para quem defende. O tiro é de um extraterrestre, feito de força e precisão. Os lances individuais fazem parte do seu ADN mas o modo como combina e progride em movimentos participados também o identificam – é soberbo no bordado coletivo que prepara a festa do golo, seu objetivo máximo, seja na forma de assistência ou de assinatura do ato.

Numa sociedade que diviniza o sucesso a qualquer preço e tudo transforma em espetáculo em nome da eficácia e das audiências; que estimula a bisbilhotice e se contenta com o superficial em detrimento do que influencia verdadeiramente as nossas vidas, as lantejoulas e a ostentação costumam contar mais do que o talento e a generosidade. O modo como olhamos para BC traduz o ascendente do social sobre o desportivo e gera a confusão entre o secundário e o fundamental, entre a forma e o conteúdo. Para ele, o futebol é treino e jogo; é gostar de ser útil e sentir-se importante pelo que faz em campo, indiferente aos tiques das vedetas com interesses nas revistas cor-de-rosa; é dar ao balneário o valor sagrado da impenetrabilidade e passar o mais discreto possível pelos interesses mundanos de outras artes que não a do pontapé na bola. Por talento, espírito e atitude perante a vida declarou guerra ao supérfluo e entregou-se à única tarefa que o motiva: ser um enorme jogador de futebol.

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Gonçalo Guedes em grande forma

Gonçalo Guedes está a concluir o que iniciou há mais de um ano. Rui Vitória deu-lhe então lugar na equipa, colado à linha na direita, de onde estava obrigado a cumprir o guião com escrúpulo. Hoje está muito mais perto do jogador que se anunciava: um avançado de todo o terreno, que dribla, conduz, remata, oferece e faz golos. É um avançado precioso, cada vez mais influente, com tudo para ser grande.

Miúdos a sair da adolescência

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O FC Porto 2016/17 tem sido muito irregular: joga bem e ganha mas quando parece embalar para uma dinâmica vencedora, que consolide a ascensão, tropeça e é devolvido ao início do processo. Os jogadores mais talentosos da equipa são Óliver (21 anos), Otávio (21), André Silva (20) e Diogo Jota (19), quatro craques a sair da adolescência. O tempo corre a favor deles. Por ora, é esperar que amadureçam depressa.

Faltou árbitro a jogo espetacular

A hora e meia será recordada: intensidade e emoção nos limites; momentos de grande espetáculo de um lado e de outro (bela exibição do Rio Ave); equilíbrio muito maior do que o resultado (0-3) deixa entender; um goleador em estado de graça (Marega); um clube altamente mobilizado para o que aí vem (presença massiva dos adeptos vimaranenses). Faltou um árbitro à altura. Com Nuno Almeida falta quase sempre.

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Por Rui Dias
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