_

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

O grito de Ronaldo em Camp Nou

Porque não concordou com muitas das decisões da estrutura merengue, entrou em rota de colisão com Rafa Benítez e diminuiu o grau de satisfação com o meio; porque não se sente amado o suficiente e a motivação teve quebras esporádicas, CR7 está a fazer uma época abaixo do habitual. Os números não se alteraram, é certo, mas a expressão do talento demolidor que faz diferenças na última década tem sido menos persistente. Prova de que, apesar de tudo, não entrou na fase obscura que muitos já lhe apontaram, foi a Camp Nou decidir o clássico mundial que eleva a rivalidade entre duas potências futebolísticas à luta entre duas cidades, talvez mesmo entre dois países. Contra as previsões, incluindo as desenhadas ao longo do jogo, coube-lhe a sentença definitiva do jogo, a 5 minutos do final: recebeu a bola no peito, limpou do caminho um desastrado Dani Alves e rematou seco, rasteiro, entre as pernas do guarda-redes.

CR7 ainda não deu qualquer sinal de fraqueza correspondente aos 31 anos. Mas o argumento é bom para quem pretende denegrir-lhe os méritos; para quem foi engolindo em seco o desplante de ser um português a arrebatar a coroa do império e os corações dos adeptos do clube que é, ele próprio, símbolo máximo de uma Espanha conservadora, ciosa do seu passado aristocrático e até nacionalista. O conceito galáctico de Florentino Pérez, que já fez muitos heróis e outras tantas vítimas – Luís Figo, por exemplo, foi uma coisa e outra –, olha menos ao futebol e mais ao negócio; menos à ética e mais à eficácia segundo os padrões do marketing e da publicidade. CR7 já percebeu que o tempo não o fará mais querido e desejado no clube; que o respeito e reconhecimento merecidos serão triturados pela saturação da imagem, pela ausência de títulos, pela natural quebra de rendimento individual e a necessidade merengue em ter novas estrelas.

PUB

É inconcebível que CR7 marque de forma tão arrebatadora o maior e mais ganhador clube da história; entre na lenda centenária do jogo como um dos mais extraordinários fenómenos de sempre; vença três ‘Bolas de Ouro’ e quatro ‘Botas de Ouro’; seja parceiro da elite que o futebol declarou como divina e só tenha conseguido uma Liga e uma Champions em sete épocas no Bernabéu. Não é possível que um deus da bola, potencial foco de exaltação e assombro universais, assente em números obscenos para os tempos que correm, chegue aos 31 anos com currículo tão vazio. O Real Madrid não cumpriu o seu papel de colosso mundial junto de um dos seus três melhores jogadores de sempre – os outros são Di Stéfano e Puskas. CR7 não precisa de dizê-lo: deu muito mais ao clube do que recebeu. E sim, é verdade, se ao longo destes anos os outros tivessem estado ao seu nível, o Real Madrid seria a maior potência futebolística do Mundo.

Nas consultas populares ciclicamente efetuadas pela imprensa madrilena, tem sido posto em causa com regularidade difícil de entender, sinal de que a comunidade merengue, que devia ajoelhar-se aos pés do seu expoente máximo dos últimos 50 anos, prefere emitir sinais de insatisfação e fazer dele réu de quase todas as tragédias. Se fosse possível decidir a vida por impulsos, seguindo a velocidade de ponta da inteligência que é a intuição, CR7 já devia tê-los deixado a falar sozinhos. Sair em ombros da casa do rival maior, em duelo que convoca os sentimentos mais primários do ser humano (amor, ódio e vingança), só está ao alcance de um predestinado. Depois de resistir à desinspiração, aguardou pelo seu momento e inverteu a tendência da festa no mais hostil dos palcos. Camp Nou viveu, assim, mais um episódio marcante de uma história sobre a qual sabemos o essencial: que CR7 é um jogador eterno para o Real Madrid. Por muito que isso doa aos mais puristas e fira os complexos de superioridade de uma certa casta em permanente conflito interior.

Luís Alberto foi o rosto da proeza

PUB

Luís Alberto é o rosto da grande proeza do Tondela, a equipa de Petit que já tinha roubado 2 pontos ao Sporting, em Alvalade. Frente aos azuis e brancos, o médio marcou o (grande) golo da vitória, num jogo que confirmou um muito bom guarda-redes (Cláudio Ramos) e um dos médios-centro mais interessantes da Liga (Lucas Souza). É uma evidência: o Tondela tem menos (6 ou 7) pontos do que os merecidos.

Armas temíveis de Lucas Lima

Lucas Lima é um dos defesas-esquerdos mais excitantes da Liga. Não é perfeito a defender (está muito melhor do que quando chegou às mãos de Lito Vidigal) mas as soluções que apresenta em termos ofensivos são imensas e diversificadas – temível em livres frontais e um perigo mesmo em lances de bola corrida. Leva 4 golos na Liga. O que marcou à Académica, no último fim de semana, é bom cartão de visita.

PUB

Fabiano Soares deu volta ao texto

Fabiano Soares começou a época num clube em ebulição, à frente de equipa com limitações. Os resultados nem sempre foram animadores e da bancada surgiram manifestações de contestação relativamente ao seu trabalho. Mais do que paciente, o treinador acreditou no plano, confiou nos jogadores e foi talentoso no modo como lidou com a preocupação e a transformou em esperança. Muito bem, míster.

Por Rui Dias
Deixe o seu comentário
PUB
PUB