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Há algum tempo, Jorge Valdano relatou conversa muito instrutiva sobre os fundamentos da violência no futebol. Essa antologia, que não demorou mais de cinco minutos a edificar, reduz-se a um diálogo com Daniel Passarella, o capitão da seleção argentina campeã do Mundo em 1978, que lhe disse desiludido: "Os defesas de hoje são uns medíocres: só sabem jogar a bater." Valdano sorriu e não se conteve: "Fala o homem que, no seu tempo, até escolhia o osso que ia partir aos desgraçados que lhe apareciam à frente." Passarella não suportou a provocação: "Não queiras comparar: eu batia por prazer, estes miseráveis batem por necessidade. Não sabem fazer de outra maneira." A diferença entre uma coisa e outra atrapalhou a evolução de muitos centrais nas últimas décadas, influenciados pelo prestígio dos maus instintos. Entre os melhores, Pepe é bom exemplo de quem, assente em qualidades físicas e técnicas notáveis, se deixou enredar nessa teia que só serve para atrasar a expressão máxima de qualquer futebolista.
Manuel Fernandes recordou-me há dias episódio com perto de 40 anos. Nos Barreiros, Noémio, um dos grandes símbolos maritimistas, que começou como extremo-esquerdo talentoso e terminou como central duro e às vezes sem pudor, teve uma entrada assassina sobre Ademar. O capitão leonino puxou dos galões e dirigiu-se ao adversário: "Tu devias fazer isto mas em Alvalade, para veres como elas te mordiam." Noémio manteve-se impávido e sereno: "Estás enganado Manel; eu bato aqui, em Alvalade e, se for preciso, até bato em tua casa." Não custa imaginar estas palavras na boca de Pepe, o central com técnica e visão para desempenhar outras funções em campo, que viveu anos de incompreensão em Madrid, ao ponto de ser acusado de não corresponder aos padrões comportamentais do Real Madrid, clube demasiado cavalheiro para aceitar tanta grosseria – renovações houve que estiveram em risco por esses motivos.
O tempo apetrechou-o de responsabilidade e prudência; serviu para atenuar a queda para a desordem, dar sobriedade a quem padecia de exageros temperamentais e controlo a quem sobrevalorizava a agressividade. Pepe é, todo ele, um longo processo de construção, que calibrou contundência com o desejo de levar o jogo para o outro lado do campo; sobrepôs a gestão emocional ao desvario de querer matar à nascença qualquer veleidade do antagonista; abdicou do orgulho pessoal depositado em lutas pessoais, algumas envolvendo casos pendentes de outras batalhas, para dar mais sentido às exigências coletivas de segurança, equilíbrio global e criação de condições para ser não o fim mas o início da ação. O central em que se tornou começou há algum tempo. Um dia, João Pinto, já como diretor da FPF, não teve hesitações em contrariar a opinião de toda a vida sobre (contra) os naturalizados: "O Pepe é um dos nossos."
Pepe pode não ser o melhor da Europa mas foi, a uma distância considerável, o melhor central do Euro’2016. Aos 33 anos, está a depurar-se como defesa dos novos tempos, a quem continua a exigir-se argumentos físicos, disponibilidade, coragem e capacidade de intimidação mas que já só se realiza com a inteligência do posicionamento e a perfeição no tempo de entrada aos lances; com o acerto das tomadas de decisão instantâneas e o talento revelado com a bola nos pés, para colocar à distância ou galgar aqueles primeiros metros no meio campo contrário, em cavalgadas que chegam a ser impressionantes. Já não vai a tempo, depois de tantas grosserias, algumas impossíveis de esquecer, para ser visto como central perfeito, herdeiro da classe que orientou parceiros ainda mais ilustres. Mas é, e será sempre nesta fase, exemplo perfeito de um defesa moderno, comprometido com o futebol, com os companheiros e com o país que representa.
Os bons sinais de João Teixeira
João Teixeira não é um capricho portista de resgatar um compatriota perdido no estrangeiro, embora a conjugação que lhe está associada (talento às carradas, juventude e nacionalidade portuguesa) corresponda à sensibilidade portista. Aos 23 anos, o ex-jogador do Liverpool iniciou bem o caminho para concretizar o sonho de reencarnar, no Dragão, o seu ídolo de sempre: Deco. Pode ser uma surpresa da Liga.
Tem 'felicidade' escrita na cara
André Horta tem tudo para jogar num grande: técnica, visão, habilidade, físico e inteligência. Mas há elementos imprescindíveis que ainda lhe faltam (autoridade para convencer os outros a segui-lo) e dúvidas por esclarecer (será capaz de dar regularidade ao futebol que possui?). Enquanto isso, desfrutemos de um jogador talentoso, a representar o clube do coração e que traz ‘felicidade’ escrita no rosto.
Arma escondida de André Gomes
André Gomes prova que toda a expressão de um futebolista não se resume às qualidades mais visíveis do seu reportório, à magia avulsa de toques, truques, dribles e demais fantasias. Há talentos superiores mais escondidos, detetados em antecipação por treinadores e sentidos por quem reparte o jogo – companheiros ou adversários. Por norma, ganha quem os valoriza primeiro. Ganhou o Barcelona.
Por Rui Dias