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Joga perante 50 mil pessoas, por vezes mais ainda, como se estivesse no bairro onde nasceu. Brahimi transporta o futebol para as origens que o purificam; para a genuína paixão pela bola e o orgulho de afirmação social perante as dificuldades de uma vida feita de privações. O desejo de ser bem-sucedido contra todas as probabilidades deu-lhe força para não aceitar o destino traçado e deitar-se à estrada disposto a fintar todos os obstáculos. O primeiro sintoma de diferença foi o modo como assimilou todos os elementos da boa condução e dominou a matéria-prima da finta: vai sempre direto ao assunto, elegante, coordenado e até arrogante quando se mete por atalhos sem saída à vista. A velocidade não tem segredos: sabe tudo sobre arranque e travagem e a saída do drible, quase sempre definida pelo instinto, nem sempre obedece a escolhas óbvias. Nunca o medo está presente em qualquer opção.
O argelino revela o talento e a coragem dos predestinados. Desde que tenha a bola nos pés, pode vir um exército de vikings em sentido contrário que ele não se intimida; se olhar em frente e vir meia dúzia de caçadores furtivos prontos para o abater, em vez de se desviar, vai direito a eles e enfrenta-os como um ser superior – o mais incrível é vê-lo, em inferioridade, sair vencedor desses despiques desiguais entre um homem só e um monte de mercenários despojados de pudor.
O corpo serve para contar mentiras e o olhar indica, por norma, o contrário do que está a pensar; o engano é uma constante do seu jogo, até ao momento da verdade, junto à baliza contrária, quando amplia os argumentos e explode em remates magistrais, passes que são punhais cravados nas costas das defesas ou meras solicitações para golos feitos à procura de uma simples assinatura. Resistente ao futebol geométrico, frio e pré-fabricado, rege-se cada vez mais pelas linhas orientadoras da eficácia – é uma serpente insinuante, difícil de controlar, para quem o caminho mais rápido para o objetivo raramente é a linha reta.
Brahimi é um dos poucos jogadores da Liga com expressão planetária, estrela cujo máximo brilho continua por atingir, mesmo que todos lhe reconheçam a genialidade que faz dele um fenómeno. Muito do seu perfil problemático está espelhado no rosto inexpressivo, triste e normalmente distante, indiferente ao sucesso e ao fracasso; essa é, de resto, característica marcante de um homem especial, artista deslumbrante, cuja insolência o isola das sensações que provoca no palco e na plateia. Brahimi incendeia estádios com a magia de um talento exclusivo, faz explodir plateias mas encandeia-se com a luz que provoca; a especificidade da fantasia que o identifica está muito dependente da confiança que emana de fora. Só atinge o pleno quando sente afeto e reconhecimento, tornando-se vulnerável a qualquer quebra na corrente de emoções que o liga ao jogo, aos companheiros e ao clube.
No dia em que tiver o cenário perfeito para ser inteiramente feliz, não apenas em cinco meses mas numa época inteira, nada lhe faltará para se atirar a voos ainda mais altos. Pode faltar-lhe consistência psicológica e regularidade; sim, deixa-se abater com facilidade e não é preciso uma tragédia para vê-lo baixar a guarda e comportar-se como peixe fora de água; sim, é um futebolista contingente, um cristal sensível e frágil que tem de ser tratado com o cuidado das pedras preciosas – e nem sempre isso é possível. Mas se prolongar até maio o estado de graça em que vive desde agosto, isto é, se passar toda uma temporada a criar milagres assombrosos sem beliscar, de forma alguma, o estatuto de melhor jogador do campeonato, em breve deixará de ser apenas o tesouro artístico do dragão para cumprir o que está inerente ao talento grandioso que possui. Elevar-se-á então a a património da humanidade.
Bruno Fernandes
não tem limites
Portugal viu consolidado, pelas mãos de Jorge Jesus, um craque deslumbrante
Bruno Fernandes assinou, frente ao Marítimo, exibição que sintetiza tudo o que tem feito (e evoluído) em Alvalade – faltou-lhe apenas um golo. Na função que desempenha é o jogador em maior evidência da Liga: de frente ou de costas para a baliza; mais ou menos perto do avançado; no meio, mais descaído para a direita ou para a esquerda, está a construir-se como craque sem limites. O futuro joga a favor dele.
Fera insaciável
chamada Cervi
Há jogadores que têm o condão de surpreender-nos a cada dia que passa
Franco Cervi confirma que, enquanto não desequilibra com arte, um jogador deve disponibilizar-se para trabalhos mais sujos; que enquanto não desperta as musas da inspiração está obrigado a trabalhar como operário. Em Moreira de Cónegos devorou os adversários com quem se cruzou como defensor e encheu o campo a tirar coelhos da cartola. É uma fera insaciável com incrível margem de progressão.
Perseguição
a Rúben Ribeiro
Há árbitros que atuam com convicções premeditadas e tomam partido
Rúben Ribeiro sofreu perto de 20 faltas frente ao Sp. Braga, das quais o árbitro só assinalou 9. Vasco Santos agiu segundo a ideia fisgada de que o novo jogador do Sporting estava em campo só para o enganar – salvo melhor definição isso é tomar partido. Para completar, qual cereja em cima do bolo, só mostrou o amarelo a Rosic, seu principal carrasco, ao minuto 85. Não há VAR que valha perante coisas destas.