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Não tem segundas intenções e nada esconde por debaixo da perpétua expressão de cansaço e sofrimento; não promove truques, é autêntico e mata a peito aberto; em cada lance arrisca a pele e até põe em causa a saúde, porque dá o que tem e às vezes o que não tem, sempre em prol do bem comum – feitas as contas, o habitual mesmo é serem os inimigos a queixarem-se enquanto ele celebra o único símbolo da vitória que conhece: o golo. Não pede nem dá tréguas a nada e a ninguém. Os golos de Slimani trazem sempre agregada uma história iniciada muito antes. Raramente são efeito sem causa: constituem o resultado de muitos quilómetros percorridos, dezenas de duelos assumidos e sucessivas lutas corpo-a-corpo travadas por todo o campo. Não significam o odioso sucesso do espertalhão que atinge a glória sem esforço e desenvolve a teoria do egoísmo, usurpando a outros fama reduzida a simples tiros, em nome de uma contabilidade sempre em dia.
Indiferente à mesquinhez da natureza, que não lhe atribuiu os favores genéticos dos artistas, cresceu condenado a render homenagem ao golo. Um dos grandes erros na apreciação a pontas-de-lança é avaliá-los pelos mesmos parâmetros de um centrocampista. Há jogadores a quem falta magia, técnica, visão, regularidade e sentido estratégico e são atacantes exímios. Quando se diz, depreciativamente, que determinado futebolista "só sabe marcar golos" entramos no domínio de uma peculiaridade difícil de entender a quem nada percebe do jogo. Como pode não prestar um especialista na assinatura do momento mais desejado e difícil do futebol? Mas as questões prolongam-se, algumas das quais em sentido oposto: como é possível, por outro lado, idolatrar alguém só porque anda por ali, encosta o pé e vive de golos fáceis? Como se pode elevar ao céu quem foge à luta e deslumbra a um só toque? Esses são os avançados para quem o futebol é um jogo de tudo ou nada; glória ou fracasso; vida ou morte.
Há ainda uma terceira parte desta realidade, de que Slimani é um exemplo perfeito, traduzida no facto de esconder no seu padrão criativo muita perícia em diversos gestos técnicos imprescindíveis ao reportório de qualquer ponta-de-lança: Super Slim é tremendo no ar, porque tem elevação e técnica de cabeceamento; sentido posicional, tempo de salto e capacidade para usar o corpo no ataque à bola – isto para lá de ser temível pelo chão, porque dá linhas de passe aos médios e aproveita bem o espaço em linha reta na direção da baliza. Não lhe peçam para alimentar o bordado da construção; de fintar ou ser criativo com armas surpreendentes; de ser eficaz de costas para a baliza. Mas dele podem esperar a eterna disponibilidade para ser útil em qualquer circunstância, com e sem bola; numa área e na outra; na disponibilidade para ajudar os dele e derrubar os outros. Mesmo quando fica em branco deixa a sua marca no jogo.
Não triunfa por ser virtuoso, pela relação com a bola ou por tirar coelhos da cartola. E mesmo quando a felicidade de um ressalto lhe facilita a vida, a primeira tentação é recordar a máxima de que ter sorte dá muito trabalho. É um caso sério de dedicação, que se impõe por insistência e se molda pelo espírito obstinado com que atropela adversários e derruba muralhas por força, entrega e compromisso. Os golos de Slimani são a conclusão de longos processos orientados pela disponibilidade absoluta, por suor, autenticidade, entrega e investimento pessoal de quem acredita não haver impossíveis no futebol; são momentos que, em vez de gerarem repulsa pelo êxito frio e cirúrgico de quem se realiza extraindo tanto de tão pouco, suscitam o afeto pela entrega sem limites, generosidade que, só por si, já justifica uma saída em ombros do estádio. Slim foi o herói da vitória sobre o FC Porto que devolveu ao leão a liderança da Liga. Como sempre, a glória saiu-lhe do corpo.
Que futuro tem este FC Porto?
Já não há muito tempo para esclarecer o mal de que padece o FC Porto
Julen Lopetegui não pode mais fazer o papel de vítima dos jornalistas que o querem "cortar às tiras" – com instintos agressivos estão os adeptos portistas e, a esses sim, JL tem de prestar contas. A história do futebol está cheia de conflitos familiares com final feliz – Vítor Pereira não era propriamente amado no Dragão e foi bicampeão em duas épocas. Resta saber se ainda há um futuro risonho na atual crise.
Renato Sanches ainda surpreende
Os grandes jogadores nunca esgotam o arsenal de argumentos que possuem
Renato Sanches não tem medo da bola e impressiona pelo modo como assume a coordenação do futebol encarnado. Chega a parecer irresponsável (dele porque comanda, dos outros porque o aceitam) que um miúdo de 18 anos desempenhe papel tão influente. O miúdo tem feito explodir todas as teorias, a última das quais, revelada em Guimarães, é a arte de desequilibrar batalhas marcando golos.
Suk é avançado para altos voos
Ninguém marca 9 golos em 15 jornadas, mais ainda fora dos três grandes
Suk está a evoluir para um excecional avançado, digno de qualquer grande equipa. Tem a sorte de atuar no V. Setúbal, que valoriza os jogadores; privilegia a posse de bola e assenta numa ideia de jogo criativa e aventureira. O sul-coreano está a consolidar o estatuto com números: marca de bola parada e corrida; em casa e fora; a um toque ou em lances individuais. O golo ao Sp. Braga, de livre direto, foi sublime.
Por Rui Dias