_
Não é conveniente traçar-lhe a rota antes de iniciar a ação: Brahimi é daqueles que prefere lançar-se à estrada e inventar pelo caminho, sinal de que, por temperamento e perfil técnico, recusa ser apenas mais um funcionário da gigantesca fábrica – luta sempre pela liberdade como ilusionista de truques mirabolantes. Foi esse espírito solitário e tantas vezes provocador que, em determinados momentos, lhe virou a vida do avesso, porque muitos são os treinadores (e ele encontrou alguns) que não aceitam a diferença e preferem maus obedientes do que bons rebeldes. A vida desses futebolistas, a quem o comando exige menos do que têm para dar, pode tornar-se um inferno, porque ninguém atinge o máximo vivendo na montanha-russa diária de vitórias e derrotas parciais e transitórias.
O franco-argelino assenta na magia instantânea e não na perfeição de ações estudadas, razão pela qual pisa a relva de estádios com milhares nas bancadas e milhões agarrados à televisão com a mesma inocência com que jogava, em miúdo, nas ruas do lugar onde morava. Apesar do rosto imune às sensações que o percorrem, Brahimi nunca tem medo, nunca se sente pressionado ou colocado perante missões impossíveis. Tem armas para sair ileso e feliz de qualquer dificuldade. É uma estrela ingénua, fruto do ensino académico (jogou em todas as selecções jovens de França) mas, principalmente, do estilo infantil e das decisões ingénuas com que se agiganta e se transforma num fenómeno futebolístico em toda a linha.
Brahimi é hoje resultado de um processo de crescimento que o fez evoluir na direção correta; entende o jogo e sabe medir cada vez melhor o tipo de intervenção na história; sendo um laboratório ambulante de invenções inconcebíveis, aprendeu a falar verdade nos arredores do golo, onde a mentira deixa de fazer sentido. Mantém a arte de destruir muralhas densas apenas pela via inspirada de quadros individuais, em que participa só ele, a bola, os adversários e a convicção de que, sozinho, pode vencer o Mundo inteiro, mas também depurou o jogo com os outros, estimulando-os a participar nas obras-primas que idealizou no início de caminhada, multiplicando, assim, a produção coletiva.
Aos 28 anos, acabou definitivamente com a imagem infantil de um talento genuíno, inconstante e frívolo; o tempo fez evoluir os rasgos que passaram de travessuras empolgantes, vistosas mas inconsequentes, em ações determinantes para o jogo, que inspiram a equipa, criam assombro e decidem o destino dos jogos. Os sopros de inspiração, geradores de explosões que mandam pelos ares toda e qualquer teoria repressiva, são agora a origem de um futebol ainda mais espetacular, capaz de exaltar estádios inteiros e gerar, como nunca até agora, um sentimento de esperança perpétua, mesmo quando a máquina emperra.
Tornou-se um génio constante, que marca diferenças pela via de uma fragrância sublime; era uma atração da grande peça, transformou-se num terramoto contínuo, que se não derruba à primeira ou à segunda, insiste até atropelar à nona ou décima tentativas; era uma peça solta da engrenagem, evoluiu para agregador de sentimentos e emoções que potencia parceiros como Aboubakar, Sérgio Oliveira, Herrera, Marega e Corona. Brahimi não alterou o ADN individualista, mágico, extravagante, que acredita nele próprio até à insolência (nem isso lhe pode ser pedido); apenas está a adaptar faculdades raras às exigências de um desporto coletivo como o futebol, às quais acrescentou compromisso (nunca esteve tanto tempo num clube como no FC Porto), regularidade, influência e maturidade. Deste modo, tornou-se uma estrela mundial, vestindo a pele de um dos maiores artistas da atualidade, prova de que o mercado, apesar da ferocidade com que funciona, ainda não descobriu todas as preciosidades ou chega-lhes com atraso considerável.
Jonas no Benfica
era inevitável
O conflito do defeso acabou em bem para o clube e para o avançado
Jonas vai ficar no Benfica e, agora, deve estar a rir-se de quem usou a imaginação (e a pouca vergonha) para, publicamente, sustentar a possível saída para a Arábia. Chegou a dizer-se, vejam só, que a Luz não era a Santa Casa da Misericórdia, porque o melhor marcador da última época estava com 34 anos e tinha problemas nas costas, omitindo que vinha de marcar 37 golos. O diferendo resolveu-se. Não havia outra forma.
Bruno e Bas Dost
libertaram tensões
O Sporting ganhou em Moreira de Cónegos mas sofreu para consegui-lo
Bruno Fernandes e Bas Dost decidiram com golos e assistências o primeiro jogo oficial da nova época – e na memória estavam ainda os acontecimentos de Alcochete. A reação foi a de quem libertou tensões acumuladas e afugentou traumas cujas consequências não se sabe onde podem chegar. Mas foram apenas os primeiros de muitos, porque um e outro confirmaram tratar-se de dois extraordinários fenómenos do futebol.
É preciso contar
com Dyego Sousa
O plantel bracarense tem soluções para cada um dos onze lugares na equipa
Dyego Sousa reclama a titularidade desde que se tornou ‘guerreiro’. A situação disciplinar da época passada não contribuiu para ter os minutos requeridos mas agora, que está resolvida, tornou-se ameaça a ter em conta, apesar da forte concorrência. Numa fase de indefinição para o resto da temporada, o ponta-de-lança lançou a candidatura com estrondo: marcou 2 golos ao Nacional. É preciso contar com ele.