De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

A aura divina de um astro das balizas

Em seis meses pareceu enredado nos labirintos da desilusão, impermeável aos afetos e indiferente às atenções universais pela nova etapa da carreira; mesmo resistindo com o orgulho intacto à mudança, foi vítima das partidas insidiosas da nostalgia, ao ponto de, no Dragão, não ter ultrapassado a mera competência, pincelada com mais deslizes comprometedores do que, propriamente, com intervenções dignas do anunciado herói que valia pontos – de memória, a exceção foi um penálti defendido com o Tondela, em vitória por 1-0. Até recuperar o estatuto de San Iker com que recolocou o FC Porto na luta pelo título, Casillas foi um guarda-redes de olhar e presença distantes, com a grandeza do Bernabéu no pensamento, sabendo que, para a família branca, será um ídolo eterno, envolto no magnetismo que faz dele, naquela posição específica, o mais extraordinário jogador de sempre do Real Madrid.

Em Chamartin, na portagem para a maturidade que são os 30 anos, deu sinais de uma degradação precoce, precipitadamente atribuída à entrada na veterania – aos 35 anos, Preud’homme chegou ao Benfica para se revelar um dos melhores de sempre no futebol português, enquanto Vítor Baía atingiu o máximo de si próprio e ascendeu ao topo do Mundo entre 2003 e 2004, com a mesma idade. A dificuldade estava definida à partida: motivar-se numa etapa menos aliciante, depois de 16 anos a defender a baliza do clube mais ganhador do século XX, e resistir à ideia de que nenhuma vitória, a partir de agora, lhe dará mais glória do que a já conquistada: campeão do Mundo (2010) e da Europa (2008 e 2012) pela Espanha; vencedor de três Champions e cinco ligas espanholas. ALiga portuguesa nunca teve futebolista com currículo tão preenchido.

Em função que exige os elementos adultos de frieza, simplicidade, prudência e responsabilidade, Casillas só não pode perder a força motriz da juventude: sonho, paixão, coragem, ambição, instinto, aventura, sentido de espectáculo… E deve encarar a ponta final da carreira mantendo o perfil e as características de toda a vida, que lhe permitiram assumir-se, desde a adolescência, como guarda-costas de grandes potências internacionais. Foi esse talento que sobrepôs a sobriedade à extravagância, o equilíbrio à agitação e a racionalidade ao exibicionismo que o trouxe até aos dias de hoje, assente no estilo que o identifica: nem kamikaze que propaga o nervosismo pelos companheiros, nem estátua que provoca o sono e entusiasma os adversários. Na pele de veterano medalhado, Iker sabe que simplicidade, concentração e intimidação são valores a que um guarda-redes só acede depois de digerir o veneno da juventude – e ele viveu esse tempo longínquo como veterano prematuro no corpo de miúdo disposto a conquistar o Mundo.

A partir de certa altura, o futuro tornou-se um tempo no qual se via mais nos livros, nos quadros e nos museus do que no seu posto de comando, entre os postes, capitaneando o exército merengue. Nesta sociedade de consumo, que promove o efémero em vez da eternidade e valoriza o supérfluo em detrimento do essencial, Casillas constitui a raridade de quem vê a fama, o reconhecimento e o prestígio dimensionarem-se em vida como só costumam crescer as glórias póstumas. Aos 34 anos ainda não foi confrontado com o crepúsculo de um percurso dourado: está em idade perfeita para manter qualidades de sempre e agregar-lhes outras que o tempo lhe concedeu. Endurecido pela ingratidão do colosso madridista, aceitou o desafio de encontrar motivação suplementar e razões para ser feliz numa vida menos excitante ao cabo de quase duas décadas noutro planeta. No fundo, trata-se de encontrar condições para manter a aura de divindade e confirmar com a camisola do FC Porto aquilo que a história há muito lhe concedeu: um lugar entre os melhores guarda-redes de todos os tempos.


João Mário está cada vez melhor

Há jogadores que, em pezinhos de lã, se aproximam-se da perfeição

João Mário continua a dar notícias animadoras quanto à sua evolução: faz quase tudo bem e cada vez as faz melhor. É uma enciclopédia com e sem bola; na gestão de ritmo e velocidade; em cada decisão que toma atrás e à frente; no modo como respeita as regras de cada zona dos amplos terrenos que pisa. Ao perfeito sentido de orientação agregou mais saber, confiança e convicção. Está feito um enorme jogador.

Carlos Martins delicia adeptos

Com o Moreirense, chegou a parecer um extraterrestre entre homens normais

Carlos Martins é, entre os melhores jogadores portugueses da última década, o mais subavaliado. Não desenvolveu os genes dos fenómenos mas foi o príncipe de uma geração dourada, importante em todas as equipas que representou, incluindo a Seleção. Bem enquadrado em termos táticos, com a confiança do treinador e o talento que possui vai fazer as delícias dos adeptos. Principalmente os do Belenenses.

Grande V. Setúbal de Quim Machado

Quando foi expulso o segundo jogador do V. Setúbal faltavam 20’ para o fim

Quim Machado viu confirmada em Guimarães a excelência do seu trabalho. O modo como a equipa se comportou no Afonso Henriques, reduzida a nove unidades, revelou a firmeza das convicções, a força da atitude e o entendimento perfeito entre as ideias do treinador e o comportamento dos jogadores. Nem com menos dois a equipa se remeteu à defesa e a chutar para a bancada. Um grande exemplo.

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