Rui Dias

Rui Dias Redator e repórter principal

A classe mundial de Brahimi

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A bola chega-lhe aos pés; ele domina, vira-se para o jogo e ninguém lhe fica indiferente: todos os elementos prévios da ação constituem o prelúdio de obras-primas que decidem jogos e levantam plateias ávidas de quem lhes acaricie os sentidos e desperte as emoções. Quando parte para cima dos adversários, Brahimi é um laboratório de perversão, onde se fabricam as invenções mais inconcebíveis, em ziguezagues sucessivos e estonteantes que desmontam toda e qualquer estratégia destruidora. Não se pode acreditar nele e nas suas intenções: é uma gigantesca mentira ambulante, que transporta engano da cabeça aos pés e só fala verdade no momento do tiro. Nesses exercícios sublimes deposita agora a maturidade e a visão adulta de quem, aos 27 anos, está no auge da carreira. Fez muita falta ao FC Porto no início da época.

Brahimi é um talento genuíno, cujo primeiro entendimento do futebol foi enquadrado pela relação não com a equipa, não com o jogo mas com a bola. Para ele, o futebol começou por ser uma expressão de arte individual, em que os outros só são necessários como último recurso para iniciativas isoladas e de risco, muitas delas condenadas ao fracasso. Formou-se como jogador lascivo, magnético e hipnótico, assente na vocação solitária e às vezes pueril de quem se propunha chegar ao céu à custa dos truques avulsos com que escapava às armadilhas montadas por todo o campo e a estratagemas (nem todos lícitos) utilizados para travá-lo. Era, muitas vezes, um jogador brilhante mas inconsequente. Hoje, mesmo quando as emboscadas são bem feitas, revela mais argumentos para superá-las, embora o estilo seja o mesmo: chama os companheiros e compromete-os com as suas intenções; recebe, entrega, vai buscar à frente, ganhando assim o espaço que o aproxima da zona onde é verdadeiramente perigoso e faz a diferença.

Durante muito tempo, Brahimi foi visto como elemento infantil, frívolo, inconstante, cuja ameaça nem sempre se cumpria. Ele avaliava a intervenção como rasgos de génio mas, na prática, eram apenas travessuras inconsequentes, mais geradoras de danos à sua própria estrutura do que propriamente de desestabilização ao adversário. Transformou-se num jogador mais concreto: deu sentido prático aos constantes sopros de inspiração que o tornavam eterno protagonista; evoluiu de peça solta do mecanismo instituído para um tremor de terra contínuo; tornou-se um agitador do processo coletivo, acrescentando-lhe armas individuais cujo efeito é provocar um clima global de exaltação, assombro e esperança perpétua. Brahimi é a fragrância de um talento constante, capaz de animar a equipa, intimidar o adversário e agitar as bancadas.

Nunca foram percetíveis os motivos que levaram Nuno Espírito Santo a negar-lhe lugar no onze. Se o braço-de-ferro com o treinador serviu para apetrechá-lo com mais argumentos táticos, então valeu a pena o tempo de ausência. A sua recuperação como titular indiscutível constitui uma das principais razões para transformar o FC Porto num sério candidato ao título. Os ensinamentos que recolheu de NES permitiram-lhe dar novo passo para a construção de um fenómeno do futebol.

Este Brahimi, que está sempre e não se deixa vencer pela desinspiração, é um jogador com quem se pode contar em qualquer momento e circunstância, não uma vez por mês mas em todas as batalhas da época; este jogador sempre decisivo, que interfere por talento mas também por compromisso, está apto a jogar em qualquer equipa; este artista superior, que parece ter valorizado definitivamente a natureza coletiva do futebol, sem desvirtuar a magia individual que integra o seu ADN, é uma estrela mundial. Se concluir o processo evolutivo em curso, tornar-se-á referência absoluta de um tempo e um dos melhores estrangeiros de sempre em Portugal.

Golos de Jonas e Maxi Pereira

Jonas marcou ao FC Porto pela primeira vez desde que está em Portugal e quis o destino que o fizesse quando o treinador adversário é o homem que não o quis no Valencia – o futebol tem coisas extraordinárias. Com o Benfica na frente no marcador, o FC Porto empatou por… Maxi Pereira, o uruguaio que trocou a Luz pelo Dragão e foi assobiado de início a fim do clássico – o futebol tem coisas do outro Mundo.

Samaris a dar grande resposta

Samaris confirmou com o FC Porto a qualidade que teimam em negar-lhe, só porque Fejsa, em boas condições (o que não sucede há mais de dois meses), é um médio-centro superlativo – sem as sucessivas lesões, o sérvio jogaria em qualquer equipa europeia. Frente aos dragões, o grego assinou exibição ao nível das que fez no título de 2014/15, quando foi titular indiscutível. Na ausência de Fejsa.

Sérgio Conceição a vencer o desafio

Sérgio Conceição aceitou desafio impensável para quem procura afirmar-se: treinar num país (França) que não conhecia, equipa mergulhada nos últimos lugares da tabela. O que fez em Portugal, principalmente no Sp. Braga e no V. Guimarães, deu-lhe a necessária confiança para aceitar o risco; a competência está a permitir-lhe sair vencedor da opção. O Nantes já viaja, tranquilamente, a meio da tabela.

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