De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

A estrela que joga sob tortura

As respostas emocionais no futebol não se orientam por conceitos de fidelidade; o adepto dá largas a impulsos passionais de circunstância, razão pela qual o jogador deve pagar na mesma moeda. O diálogo entre artista e espetadores pressupõe comunicação instantânea de ida e volta: um oferece talento, os outros pagam com aplausos – se um falha e vê crescer o medo de não estar à altura da expectativa, os outros acentuam a frustração e pontuam a relação com violentas recriminações sonoras. O pior mesmo é quando o conflito se prolonga no tempo, criando diferendos difíceis de superar como, por exemplo, o que um fenómeno inigualável como Nené, enorme goleador e um dos melhores avançados portugueses de sempre, alimentou com o mítico terceiro anel do velho Estádio da Luz.

Quando o público deposita a sua inclemência num jogador adversário é sinal de que o teme e quer desestabilizá-lo pela via do assobio e até do insulto. Um jogador inteligente faz dessa distinção negativa uma força suplementar, uma arma tática para enfrentar ainda mais forte todos os obstáculos, por mais difíceis que sejam. Todos os estádios do Mundo podem vociferar contra Cristiano Ronaldo que ele trata sempre de reverter a fúria alheia em benefício do seu magistral talento explosivo e arrasador. Todos os estádio menos o Bernabéu, naturalmente. Porque nesse é suposto que os principais beneficiários da sua genialidade desequilibradora o tragam nas palminhas da mão. O mais impressionante é verificar que falamos de boa parte daqueles que, nas palavras do próprio CR7, mais uma vez terão de "meter a viola no saco".

Nesse negócio entre ator e plateia cada um dá o que tem. O primeiro deve acertar na prenda para que a segunda seja agradecida ao recebê-la. Entre eles nunca ficam contas pendentes, porque os adeptos não permitem dívidas. André Gomes tem a força do caráter inabalável e o talento de um iluminado que, assente em soluções individuais riquíssimas, atinge a plenitude pelo conhecimento de todas as chaves do futebol como jogo coletivo – arte enriquecida pelo contacto com a universidade catalã. Luis Enrique, seu treinador no Barcelona, afirmou, no final de uma grande exibição, que o médio português está apenas a 40 por cento do que pode e sabe. Sobreviver íntegro à gigantesca expressão hostil de Camp Nou, transformado numa absoluta sanguessuga do mérito alheio e de personalidades fracas, só está ao alcance de espíritos fortes. É preciso ter muita maturidade para isolar o som e o tom que emana do exterior agindo como se nada de anormal estivesse a suceder. Essa capacidade de resposta pode não ser sinónimo de um grande jogador mas é, sem discussão, indício claro de que o futebolista está a consolidar-se como homem. Já é um bom início de conversa.

André Gomes viveu, aos 23 anos,no momento mais feliz da carreira, a provação máxima: jogar sob a tortura de sentir os aliados tradicionais transformados em inimigos impiedosos, indiferentes à sua tranquilidade e ao bem-estar da própria equipa. As armadilhas montadas ao longo da época, muitas delas em forma do mais selvagem vampirismo futebolístico, são indignas de um clube civilizado, fiel a uma ética inegociável e a princípios de defesa a quem representa a causa. É vergonhoso que os adeptos tenham sido tão injustos e cruéis mas é também indigno o apoio jornalístico à incompreensível e miserável campanha. André Gomes é um dos médios mais inteligentes, elegantes e ricos do futebol europeu e não merece ver o lar transformado num inferno temível. A Seleção tornou-se refúgio de afeto e compreensão; um parêntese de felicidade e esperança na tormenta que foi o dia-a-dia ao longo de toda a temporada. Que o viva em pleno e dele saia ainda mais forte para abordar o futuro são os votos dos verdadeiros adeptos do futebol.


CR7 desenhou quinta coroação

Cardiff foi nova etapa na consagração de um enorme imperador do futebol

CR7 aceitou, aos 32 anos, a sugestão de que já não pode fazer todos os minutos, de todos os jogos, de toda a época. Durante a carreira, sempre que algum treinador lhe sugeria descanso num jogo menor, reagia com maus modos, seguro de que estava sempre em condições de jogar. Chegar com tanta frescura física ao final de 2016/17 pode ter-lhe valido a quinta Bola de Ouro. E igualar Leo Messi.



Onde colocamos míster Zidane?

O que é um grande treinador? As definições vão para lá dos resultados

Zidane venceu a Champions pela segunda vez em ano e meio no Real Madrid e, seguindo um raciocínio em voga, o sucesso bateu-lhe à porta porque tem os melhores jogadores. A qualidade no futebol não tem só a ver com a ciência; passa também por verdades simples: criar um bom clima de trabalho, escolher os melhores e dar-lhes a bola nas funções em que se sentem mais confortáveis. Como Zidane.


Marcelo atingiu o ponto máximo

Mais do que acentuar a sua especificidade, ele reinventou uma função

Marcelo atingiu, aos 29 anos, o ponto máximo como lateral-esquerdo. É cada vez mais competente a defender e cada vez mais criativo a atacar. Quando embala de trás é imparável, por articulação motora e relação com o jogo; em posse, nas zonas mais adiantadas, revela o talento, a visão e a qualidade global dos grandes artistas. À custa de armas excepcionais deu dimensão a uma tarefa nem sempre prestigiada.

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