A hora ainda não chegou para Luisão
Numa época de uniformização, que desvirtuou a essência das entidades coletivas que são os clubes, funciona como alicerce da gloriosa história do Sport Lisboa e Benfica. É incrível que, chegando numa altura em que o clube saía lentamente do período mais negro da sua existência, tenha um currículo, entre jogos e conquistas, ao nível de muitos que viveram em períodos dourados. Luisão venceu todos os títulos do Benfica no novo século e, 13 anos depois, é um defensor da identidade encarnada e um transmissor de valores, princípios e estilo às dezenas e dezenas de futebolistas que, em mais de uma década, chegaram à Luz.
Agora que as equipas são o reflexo de profissionais que falam a linguagem universal do futebol, compostas por jogadores de talento reconhecido, orgulhosos da profissão que abraçaram e desejosos de triunfar na vida, Luisão remete para a história que une a família e o sentir dos adeptos. O Benfica tem mudado as peças do seu exército ao ritmo e com a dimensão de quase todos, mas encontrou no seu capitão o contraponto à desgraça de outros, cujos plantéis revelam vínculos muito mais voláteis, alguns até inexistentes, com as traves-mestras sentimentais das causas que representam e defendem. O passado, porém, é apenas uma parte da questão: Luisão tem sido em 2016/17 muito mais do que um símbolo do Benfica e um jogador com acesso garantido ao livro de ouro da águia.
Num lote de centrais como não existe em Portugal (ele, Lindelöf, Jardel e Lisandro) tem revelado frescura, paixão e qualidade mais do que suficientes para se manter no seu posto de comando. A idade sugestiona falhas de toda a espécie, a esmagadora maioria fruto de preconceito, leveza e, sejamos educados, alguma ignorância. Frente ao Sporting, Luisão assinou exibição ao nível das credenciais que apresenta, num jogo em que a águia foi posta à prova em termos defensivos. Só uma equipa agarrada ao comando de um homem que domina todas as regras, cumplicidades, automatismos e demais elementos fundamentais ao bom funcionamento coletivo pode suportar a carga atacante imprimida pelo eterno rival, principalmente na segunda metade do dérbi.
O capitão benfiquista é a referência máxima de um processo de articulação mais vasto, que atinge não apenas o sector defensivo mas toda a equipa. É um líder que, a cada novo problema, tem duas ou três formas de resolvê-los. Feitas as contas, é o fiel depositário da Constituição imaginária que orienta a nação encarnada, definida em termos táticos e estratégicos pelo treinador. Se a autoridade, a voz de comando e o estilo relevam a imperiosa necessidade de zelar pela complementaridade com o parceiro do lado e companheiros circundantes, mantém argumentos individuais para uma grande equipa: potência de salto e bom jogo de cabeça; capacidade para adivinhar, antecipar e chegar primeiro ou sair vencedor dos duelos pela utilização do corpo. Joga bem em espaços curtos e, não sendo rápido, tem inteligência para não se perder em campo aberto. Isto para lá de manter precisão fantástica no que faz e raramente se enganar quando toma uma decisão.
Luisão não vai para novo e estará cada vez mais à mercê de contingências várias para manter o nível e a regularidade de sempre, desde logo as debilidades físicas. Estas serão mesmo as últimas gotas do talento de um central que, longe de ser virtuoso, já garantiu lugar entre as maiores figuras de sempre do Benfica e do futebol português. Um dia serão corretas e farão sentido as críticas, muitas delas desajustadas, que hoje lhe fazem. O capitão encarnado sabe que a luta com os limites tem sempre o mesmo resultado: mais cedo ou mais tarde ganham os limites. O que Luisão tem dito, alto e bom som, é que a hora dessa derrota anunciada ainda não chegou.
O grande feito de Cristiano
A consagração de CR7 constitui um orgulho para todos os portugueses
Cristiano juntou a quarta Bola de Ouro às quatro Botas de Ouro que já conquistou. Já está entre os melhores jogadores da história do futebol e isso devia bastar para enaltecer os méritos de génio raro. Mas não: tem havido sempre quem queira hierarquizar as conquistas e fazer comparações. É assim como querer definir à força quem foi o melhor rei de Portugal: D. Afonso Henriques ou D. João I?
Campbell ganha pontos para o onze
Quando sai do banco melhora sempre a equipa. Na Luz voltou a ser assim
Joel Campbell trouxe o que faltou ao futebol leonino na primeira parte do dérbi: inspiração, profundidade, desestabilização… Com a bola dominada foi um ‘ai Jesus’ para a defesa encarnada, de tal forma que nunca se vira Nélson Semedo em tantas dificuldades – o lateral benfiquista ficou indisponível para subir no terreno e sofreu muito para travar o adversário direto. Está a ganhar pontos para a titularidade.
Brahimi voltou a ser amado
Há coisas no futebol (quase tudo) que são uma metáfora da própria vida
Brahimi é um jogador sublime, muito dependente de estados de alma; é um artista que não suporta sentir dúvidas à sua volta, mais ainda aquelas que o treinador alimenta. Quando o diferendo se resolve e volta a sentir-se amado e importante responde como todos os jogadores que se expressam pela via do engano e da magia: retribui com futebol grandioso. Normalmente isso chega para se tornar decisivo.
