De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

A incrível história de Éder

Quando chega a vez de um grande palco, os adeptos multiplicam-se e o fenómeno ganha dimensão. O conceito de pátria reaparece como um dos mais misteriosos simbolismos do futebol, numa associação imediata à bandeira, ao escudo, à família, aos amigos, à escola, à rua... Por isso, quando se trata da "equipa de todos nós", como lhe chamou o jornalista Ricardo Ornelas (1899-1967), tudo é breve mas grandioso. O jogo evolui então para uma fonte geradora de amores e ódios; de esperança e depressão; de heróis e vilões. A Seleção Nacional é alvo de escrutínio generalizado, à exceção de uma certa casta que recusa esforçar-se para conhecer melhor o ser humano, explicar o seu comportamento e dar significado às suas raízes. É a tradicional indiferença de uma intelectualidade preconceituosa perante a força de uma paixão lúdica que suscita a convicção que o homem costuma recusar na defesa de valores muito mais relevantes nas suas (nossas) vidas.

Até os que se recusam a aprender com o futebol e o desprezam como fenómeno social já sabem quem é Éder, o luso-guineense que, em contramão com desrespeito e insulto, foi protagonista do maior feito do pontapé na bola nacional. Éder nunca teve o apoio de um grande clube, nem qualquer benesse da fortuna. Na longa viagem, regressou sempre ao mesmo lugar, o da incompreensão, da dúvida, da crítica e do insulto. Mas nunca deu sinais exteriores de agitação, mesmo quando as agressões o faziam jogar sob tortura. Era culpado, sabe-se lá de quê, até prova em contrário. O novo herói sabe hoje (sempre soube) que muitas das recriminações assentavam na leveza de opiniões pouco fundamentadas. E também no impulso emocional das bancadas, quase sempre indiferentes ao conceito de fidelidade: o adepto deixa-se levar por impulsos passionais de circunstância, razão pela qual o futebolista deve responder na mesma moeda, isto é, com sentido do imediato.

Éder escolhera um atalho para o sucesso evitando passar pelo raciocínio. Tinha uma convicção inabalável de que ia marcar à França – ele próprio já afirmou que não ouviu as indicações de Fernando Santos e só lhe disse "oh míster, não se preocupe: eu vou entrar e vou marcar". Todos quantos alimentaram a certeza de que a eternidade esperava por ele no Stade de France provam que a intuição é a velocidade de ponta da inteligência. Essa parte mais reflexiva do cérebro foi obrigada a confiar em decisões, gestos e movimentos repentinos que, sendo inexplicáveis, devem sempre merecer uma oportunidade. Éder recebeu a bola na sequência de uma titânica luta coletiva para recuperá-la; seguiu paralelamente à baliza, aguentou o choque, endireitou-se depois de um ligeiro tropeção e aplicou um remate espetacular. Quando o fez sabia que ia ser golo e estava a entrar na lenda maior do futebol em Portugal. Desde o primeiro dia que andou centésimos de segundo à frente dos outros.

Se a glória de um título único, circunscrito aos sonhos mais belos de cada um de nós, estava condenada a gerar um herói eterno, o destino foi justo ao conceder esse papel a Éder, o homem inteligente, sensível e bem formado, cuja vida dava um filme; que atingiu o momento mais alto da carreira alicerçado numa incrível história de sofrimento contada com sorriso desarmante. Sabemos hoje, por exemplo, que não acumulou revolta suficiente para transformar o tiro mais importante do futebol nacional numa vingança sobre aqueles que o ofenderam tratando-o como simples capricho do selecionador. Éder não é o melhor avançado do Mundo. Mas também não é o pior – e está claramente entre os mais cotados em Portugal. O golo no Stade de France serviu para conhecê-lo e olhá-lo como é inevitável a partir de agora: um dos futebolistas mais importantes da história do jogo no nosso país. Para ele, e para nós também, nada será como dantes.


Daniel Podence tem argumentos

O futebol não elimina por físico mas exige uma virtude desequilibrante

Podence beneficia de ter escolhido a modalidade mais democrática dos desportos coletivos, aquela que não estabelece diferenças entre altos e baixos, lentos e rápidos, gordos e magros. O futebol só distingue os bons dos maus, os que têm e os que não têm talento. Era melhor que tivesse mais de 1,65 metros mas apresenta uma panóplia de argumentos técnicos que o ajudam a superar essa aparente dificuldade.


A importância de André Silva

Não há duas formas distintas de olhar para o futuro imediato do FC Porto

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Nélson Semedo está aí outra vez

Apareceu, deslumbrou, lesionou-se com gravidade e voltou à estaca zero

Nélson Semedo reapareceu . O jovem defesa deslumbrou no início da época passada, na qual funcionou como surpreendente substituto de Maxi; foi à Seleção mas lesionou-se para vários meses, os suficientes para perder muito do que parecia perto de conquistar. Ele aí está de volta, pronto para recuperar o que deixou a meio. Ser o melhor jogador da Algarve Football Cup foi só um primeiro passo.




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