A Seleção está em boas mãos
Quando Paulo Bento apostou nele, contra tudo e contra todos, convicto de que estava a dar futuro ao Sporting e ao futebol português, não faltaram as vozes contestatárias daqueles que foram mais sensíveis à fantasia de que Stojkovic era o melhor guarda-redes da Europa – e esses, por ignorância e preconceito, não podiam avaliar o momento como a génese de um mito das balizas. Nessa fase conflituosa de afirmação, Rui Patrício cometeu erros mas nunca se deixou seduzir pela demagogia do adorno e da extravagância. Quando era um simples adolescente e não seria escandaloso que reclamasse protagonismo para chamar atenções, jamais caiu na armadilha de criar problemas onde era suposto levar a solução. A sua construção como guarda-redes nunca adotou o estilo exuberante de quem promove um conceito de espectáculo e o adapta a novas realidades. No momento de ser chamado à baliza do Sporting já dominava todos os elementos do guarda-costas de uma grande equipa. As falhas deveram-se à falta de experiência. Não ao perfil desvirtuado para as exigências do que estava para vir.
RP sempre foi um guarda-redes sóbrio, ponderado, discreto, sem tendências suicidas nem propensão para atos heróicos. Mesmo na fase embrionária de afirmação, duplamente pressionado – era muito jovem e a concorrência apresentava-se poderosa –, revelou sintomas de responsabilidade, num processo que prosseguiu com a abertura para ouvir os mestres e continuar a aprender; de aprimorar a sensatez que consolida o equilíbrio e agregar ciência em doses proporcionalmente inversas ao esfriar de paixões juvenis que, em boa verdade, nunca o condicionaram. Nos primeiros passos do trajeto foi confrontado com imprecisões técnicas; com más avaliações da profundidade; com a dificuldade em antecipar alguns factos, que o faziam chegar fora de horas, logo desenquadrado, a muitos despiques.
O sucesso arrebatador oculta erros que, em muitos casos, nem são reconhecidos – o que conduz, por norma, à travagem da normal evolução de um jogador. Nesse sentido, para o bem e para o mal, RP não construiu em Alvalade o império de conquistas relevantes que podia levá-lo ao topo como figura de uma grande equipa europeia. Talvez por isso nunca tenha dado por concluída a assimilação de competências, razão pela qual não tem parado de crescer. Nos duelos diretos com os avançados, por exemplo, é um dos mais completos guarda-redes da atualidade: tem instinto felino na saída dos postes e na abordagem aos lances; sabe manter as distâncias; é perfeito a encontrar o tempo de intervir e utiliza como poucos os segmentos corporais para tapar a baliza. Pela eficácia nesses confrontos, mas não só, cumpriu um dos requisitos que distinguem os grandes guarda-redes: o talento para intimidar os adversários e conduzi-los ao erro, reduzindo-lhes a imensa baliza que tem a seu cargo às dimensões de uma de hóquei em patins.
RP nunca viveu na dependência dos elogios da crítica ou dos gritos do público. Revelou imperfeições, cometeu erros que valeram pontos mas manteve fidelidade ao projeto de carreira que definiu (jogar em equipas grandes); nunca traiu as orientações dos treinadores e o compromisso assumido perante os companheiros. Aliás, foi essa capacidade isoladora do exterior e a convicção intuitiva de que as respostas emocionais coletivas não se fundamentam numa relação de fidelidade, que o fez prosseguir o caminho e chegar a este ponto da viagem; foi o entendimento de que os impulsos momentâneos com origem nas bancadas se explicam avulso pelo êxito das intervenções ou pelo seu fracasso que o tornaram imune a dúvidas e recriminações. Aos 28 anos atingiu o ponto mais alto do percurso, sublinhado com uma temporada a roçar a perfeição. É um dos melhores guarda-redes da Europa. A Seleção está em boas mãos.
O deve e haver de CR7 em Madrid
Ao fim de 7 anos, as contas entre Ronaldo e o Real Madrid não estão em dia
CR7 invadiu o terreno sagrado do clube mais ganhador da história do futebol. Tornou-se o melhor marcador de sempre do colosso e está a deixar marcas arrasadoras no Bernabéu a todos os níveis. É símbolo de um tempo e uma das estrelas maiores que envergaram aquela camisola. Se o Real Madrid lhe tivesse dado, em títulos, uma glória proporcional à sua grandeza, o fenómeno seria ainda mais arrasador.
Guerreiro pode ser preciso
Nascido em França, só se mostrou a Portugal quando jogou na Seleção
Raphaël Guerreiro é um jogador distante mas cada vez mais próximo dos portugueses. Agora, de cada vez que o vemos junta algo à construção do puzzle como um dos melhores laterais-esquerdos nacionais e dos mais apetecidos no mercado europeu. A última peça, confirmada com a Noruega, foi a de um especialista em livres na zona frontal. Desde que cumpra as obrigações defensivas pode ser um jogador precioso.
Magistral lição do imperador
Usufruamos das últimas gotas de talento de um dos melhores da história
Ricardo Carvalho é uma ave rara. Poder-se-ia pensar que, de tão veterano, sentiria maior conforto em competições curtas mas os números não confirmam a tese – estará no Europeu aos 38 anos, no final de uma época em que fez 44 jogos, correspondentes a 3.833 minutos. Com a Noruega, o imperador deu magistral lição de como joga um central. Aproveitemos cada instante. Não há tempo para muito mais.
