Rui Dias

Rui Dias Redator e repórter principal

A vida nova que o dragão conquistou

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O futebol não pode resumir-se a uma questão de perder ou ganhar: é jogar ou não jogar; defender um estilo, uma história e um modo de ser ou defender rigorosamente nada; é ter uma ideia, trabalhá-la e desenvolver uma estética ou apostar na sorte, no pontapé para a frente e no salve-se quem puder. Jogar bem não exclui o objetivo de vencer, antes o persegue de um modo mais nobre e pleno, razão pela qual nem todos os desaires têm o mesmo significado. Por conhecer os cantos à casa, dominar as suas regras e a especificidade do povo que nela habita, Nuno Espírito Santo sabe que tem sempre de dar satisfações aos adeptos. Os gostos no império do dragão são imutáveis e contagiosos: realçam a mediocridade quando só se pensa em algo (a vitória) e a grandiosidade quando se joga por alguém (adeptos). Sobre isso NES pode escrever uma enciclopédia.

O FC Porto 2016/17 pode ser tudo o que quisermos mas não uma equipa improvisada – há ali trabalho que privilegia uma ideia, assente em processos bem assimilados, orientado por organização, disciplina, compromisso, ordem e responsabilidade. A ação coletiva sem bola é perfeita, revelando mecanismos oleados na reação à perda e inteligência posicional indiscutível. É muito difícil bater Iker Casillas. Falta agora concluir, num clima menos conturbado, a tarefa de homogeneizar as diferenças e torná-las solúveis na produção global de um modo prolongado no tempo. A equipa não tem jogado tão pouco como tem sido acusada mas também não o tem feito com o brilhantismo sempre sustentado pelo seu treinador.

O futebol depende de muitos fatores aleatórios que escapam às mais rebuscadas explicações técnicas e táticas. Há jogos decididos por erros individuais e imprecisões coletivas; por inspiração de um homem só, caprichos da bola ou falhas arbitrais. Nesta época, o FC Porto pode lamentar alguns resultados negativos pelo sortilégio de momentos avulsos. Mas fê-lo vezes em demasia. NES desacreditou a explicação por excesso, porque nem tudo foi azar, falta de pontaria e más avaliações dos juízes. Houve também, e por mais de uma vez, desarticulação entre boas ideias e má prática; entre o plano assimilado e a sua execução.

No plano de ataque, e esse tem sido o problema, falta harmonizar o talento. Quando o motor criativo de uma grande equipa é composto por quatro peças entre os 19 e os 21 anos, o resultado não é garantido. Óliver (21 anos), Otávio (21), André Silva (21) e Diogo Jota (19), que em breve serão jogadores de referência a nível mundial, são jovens a crescer debaixo de uma pressão insustentável – e as circunstâncias criaram um novo herói, Rui Pedro, que engrossa a lista de adolescentes, com os seus 18 anos. Mas isso pouco importa. Tal como a NES não chega ser um homem da casa, com formação azul e branca e apego emocional à causa do dragão, aos jovens mosqueteiros de pouco lhes vale a juventude, porque o adepto não se envolve para perguntar a idade mas para vê-los fazer a diferença.

A tremenda exibição e vitória sobre o Sp. Braga; a eventual qualificação para a Champions e o dérbi, do qual sairá sempre beneficiado, podem fazer regressar o FC Porto ao estatuto que lhe corresponde. O dragão conquistou uma vida nova. Agora, detona a esperança ou permite que fantasmas recentes o dominem; acredita na competência e na sua vocação vitoriosa, na certeza de que pode reerguer-se, ou mergulha num mar de desconfiança e deixa-se dominar pelo medo que conduzirá, fatalmente, à derrota. Porque a dúvida não é lugar onde se deva viver muito tempo, a família azul e branca precisa de tomar essa decisão: acredita no timoneiro e tem palavra a dizer na época ou vive de pé atrás e corre sérios riscos de novo ano de jejum. A justiça quando chega tarde também pode ser considerada injustiça. NES ainda vai muito a tempo de desfrutá-la.

Futuro candidato à Bola de Ouro

Gelson está a dar os primeiros passos como génio do futebol e potencial candidato à Bola de Ouro – dependerá dele e da evolução que fizer mas, principalmente, do destino que escolher para se expressar quando sair do Sporting. Na temporada de afirmação, nenhum jovem português foi tão longe (e a viagem prossegue) na definição de um futuro entre os deuses. Nem Figo e CR7 o igualaram.

Gonçalo Guedes a crescer bem

Gonçalo Guedes duplicou a largura de ombros e não perdeu agilidade; evoluiu de esforçado extremo para avançado-centro com sentido de baliza e soluções contundentes. O tempo ajudará a concluir o projeto há muito definido por quem o conhece desde miúdo: tem todas as ferramentas para ser um atacante completo, capaz de fazer um qualquer tubarão a perder a cabeça. Aos 20 anos, tem tudo a favor dele.

Battaglia tem muito futebol

Battaglia é máxima referência do soberbo Chaves de Jorge Simão. Em Guimarães, onde assinaram exibição de luxo, os flavienses sofreram um golo aos 3 minutos e, depois, deixaram-se levar pelo poder de orientação do seu estratega. O argentino ajudou a ganhar o miolo, pela perfeição no posicionamento (sem bola) e pela condução do jogo (com bola). Um craque na idade perfeita (25 anos) para se afirmar.

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