De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

A vingança do gigante goleador

Sendo verdade que uma equipa se consolida na harmonização de virtudes distintas, a integração de um jogador desfasado dos restantes pode aumentar a qualidade global. Longe do talento de quem o rodeia, Bas Dost segue o instinto, aproveita a arte dos outros e tenta revertê-la em prol das suas melhores qualidades: como não tem fantasia vinga-se marcando golos – quem lhe pode levar a mal? O erro tem estado presente na sua produção mas vive fase transitória até à integração total. Os tiros certeiros que já tem como leão permitem-lhe não fazer uma tragédia de cada vez que define mal um movimento, não acerta um passe ou não dá seguimento a um lance. Perto da baliza é um portento: acompanha os envolvimentos, analisa-os e corre para o sítio certo, como se tivesse encontro marcado com a bola, num lugar que o instinto escolheu. Quando o entendimento estiver mais oleado, Dost cumprirá melhor a obsessão pela eficácia, enquanto a equipa encontrará o especialista ideal para dar saída ao bordado da construção.

Bas Dost pode escrever uma enciclopédia de como jogar na área e está em condições de dar aulas sobre tomadas de decisão na reta final do processo de aproximação à baliza. Por isso, e porque tem um rasto goleador impressionante, tem autoridade moral para reclamar aos companheiros um esforço suplementar para aperfeiçoarem a cumplicidade e criarem sintonia. O novo ponta-de-lança tem um padrão físico e criativo irreverente com quem lhe alimenta a veia goleadora – Gelson, Markovic, Bryan Ruiz, Bruno César, Alan Ruiz... Precisam agora de acentuar a química para que a equipa potencie a produção. Dost é um especialista do último toque, os outros são exímios criadores de futebol. Não são comparáveis mas estão condenados a ser complementares e mal seria se o resultado da integração fosse a loucura de vermos um cowboy com pontaria afinada no meio de uma orquestra sumptuosa, a tocar as mais belas sinfonias.

Tem menos amplitude e agressividade do que Slimani e é menos habilidoso do que qualquer ponta-de-lança do Sporting; mas assenta em técnica austera, que lhe permite ser preciso e eficaz nos gestos mais elementares e nos movimentos específicos da vida que escolheu: a receção, o passe, o remate, o jogo de cabeça; o posicionamento, a ocupação do espaço, o ataque à bola. São quase 2 metros de jogador com alguns defeitos adjacentes mas muitas virtudes construídas a partir dessa desvantagem. Bas Dost conhece as limitações e atingiu a excelência também pela inteligência humilde com que encara e interpreta a ação: não dribla porque não sabe; não se afasta da área porque pouco acrescenta longe dela; não ensaia truques porque não tem imaginação para isso. Mas lida bem com o erro, é lúcido e tem ambição para demonstrar que pode ser útil a todo o momento.

A única finta que conhece é sobre a mediocridade. Foi assim que conseguiu sair vitorioso da mesquinha contribuição da natureza para a sua formação como jogador. Por isso continua a aprender e, no Sporting, bem pode despertar todos os sentidos para se aproximar da excelência, seguindo os conselhos de mestre Jorge Jesus. Bas Dost configura a imagem do gigante desarticulado e deselegante, cuja síntese não o favorece aos olhos de quem se habituou a valorizar cada intérprete numa perspetiva artística. O holandês é daqueles futebolistas que muitos resumem como não tendo a magia dos grandes génios; que jogam pouco e ‘só’ sabem fazer o que o futebol tem de mais difícil e valioso: o golo. É fundamental ter paciência com eles e nunca subestimá-los porque, na mesma noite, podem ir do céu ao inferno. E vice-versa. Os avançados, como todos os jogadores cuja tarefa se baseia em dados concretos, têm quase sempre razão. São predadores temíveis. Dão-nos cabo dos nervos mas valem um dinheirão.


Grimaldo de mais
para mero lateral


Não tarda discutirá um lugar na seleção espanhola. Não há muitos como ele.

Alex Grimaldo tem resposta para qualquer questão suscitada na retaguarda do flanco esquerdo. A técnica é sublime, o atrevimento é total, a inteligência e a robustez física estão a torná-lo melhor defesa. O jovem benfiquista cumpre etapas para o destino de ser um enorme lateral. Ou, como Raphaël Guerreiro no Dortmund, dimensionar-se ao ponto de mostrar que é bom de mais para tão estrita função.

Diogo Jota luta
pela titularidade

Aos 19 anos, está a confirmar no Dragão que é um craque de nível europeu.

O mais jovem a chegar aos 10 golos na Liga foi também o mais jovem a conseguir um hat trick na estreia como titular do FC Porto. Diogo Jota contraria a ideia prevalecente de que há uma diferença entre ser bom numa equipa modesta (P. Ferreira) e numa grande potência. Os 3 golos ao Nacional não lhe garantem a titularidade mas, a partir de agora, ninguém pode negar-lhe a ambição de ser primeira escolha.


Quando o juiz
está fora da lei

O que deve fazer a sociedade aos juízes que exercem sem cumprir a lei?

O penálti assinalado por Fábio Veríssimo no Chaves-Belenenses dá que pensar. A lei diz que o contacto da bola com a mão só é faltoso se for deliberado. Isto é, se o potencial infrator tirar partido, conscientemente, da ação. Os árbitros que não souberem avaliar esses lances podem sempre dedicar-se a outra atividade. Enquanto isso não acontecer, vivemos em pleno salve-se quem puder. Fora da lei, portanto.







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