De pé para pé

Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

Adrien é um jogador sem preço

Pertence ao grupo dos jogadores sempre relevantes numa equipa: quando defende, porque é solidário e comprometido, e quando ataca, porque tem talento, visão e ideias claras; quando ganha, porque o êxito não o torna arrogante e imbecil, e quando perde, porque a derrota não o debilita de forma alguma; quando está, porque a sua influência é notória, e quando não está, porque faz falta ao normal funcionamento da equipa – e todos sabemos o que passou Jorge Jesus com a recente ausência de um mês, entre a lesão contraída em Guimarães e o regresso em Dortmund.

Para lá da importância técnica e emocional que exerce, o seu futebol traz equilíbrio, inteligência e soluções táticas ao coletivo. Adrien é tão importante a vigiar um alvo concreto (o exemplo mais à mão tem a ver com a ação sobre Modric, pela Seleção e pelo Sporting) como a intimidá-lo com argumentos superiores na condução do jogo. Raros se aproximam tanto da perfeição perante a complexidade de uma tarefa que visa perseguir e barrar o caminho a quem tem a bola e ser criterioso, perigoso e eficaz no momento de reconquistá-la.

Por isso, tanto pode aceder ao trono dos futebolistas decisivos com argumentos de gregário, como a iluminar o processo de construção que clarifica a definição dos movimentos de ataque. Não é um artista e nisso estaremos todos de acordo. A bola sabe antecipadamente que, nos seus pés, não receberá um adorno nem fará parte de truques de magia; ao mesmo tempo, tem a certeza de que não ficará ali muito tempo. Mas sabe também outras coisas: que será bem tratada, terá o destino correto e será associada a uma eficácia sem pompa, prova de que o embrulho é secundário quando em causa estão prendas valiosas. Um dos efeitos do seu jogo é esse: despojar o futebol de qualquer superficialidade. Está ali para jogar, orientar a equipa segundo as diretrizes do treinador e dar tudo o que tem, sem intenções de alimentar o recreio ou a fantasia de tirar coelhos da cartola.

Nunca se distrai. Para isso evita malabarismos e ziguezagues que só o atrapalham e diminuem. Tem coisas mais importantes para fazer: não está ali para perder tempo com gestos e movimentos que levam a nada e para os quais não está vocacionado. A tarefa que assume, na qualidade de talento altruísta, com amplo raio de ação e diversidade funcional, é a de melhorar a equipa, à qual reclama linhas de passe para, em conjunto, todos descobrirem o caminho para o objetivo final. Nas equipas construídas por Jorge Jesus nos últimos anos, desempenha um papel semelhante ao de Witsel, Enzo Pérez e Pizzi. Não fica a perder para nenhum deles, com a vantagem de usufruir, à partida, de um estatuto no clube que os outros não tiveram tempo de alcançar (o belga só esteve uma época na Luz e o argentino do Valencia saiu a meio da afirmação plena) ou só agora estão a construir (Pizzi tem aumentado, gradualmente, o respeito no clube e o peso relativo na equipa).

Assim sendo, Adrien acrescenta ao talento futebolístico a força da liderança, o poder de representação e a cumplicidade com as opções do treinador. É um enorme jogador cuja ambição, aos 27 anos, tem a ver com o sucesso desportivo mas também com o robustecimento em termos financeiros. O problema coloca-se agora atendendo à dificuldade de harmonizar uma série de pretensões, a começar por descobrir um meio no qual seja tão acarinhado e uma equipa que dependa tanto da sua arte. A questão é pertinente e merece ampla reflexão: quanto vale Adrien? Para o Sporting não tem preço, para quem estiver interessado basta pagar a cláusula de rescisão. Manuel Alegre disse um dia, sem pensar em futebol: "Muitas vezes a maior aventura é ficar." É esse esforço que os leões terão de fazer para não deixarem partir aquele que, de momento, é o seu futebolista mais importante.


Onde irá parar maestro Pizzi?

Ele é o culminar de vários anos a dimensionar um talento fora do comum

Pizzi evolui para fenómeno que concentra as melhores qualidades de um chefe de orquestra que exerce a partir de qualquer zona do palco, desempenhando as mais diversas funções. Atuando nos flancos faz de maestro desviado do centro de ação; no meio torna mais visível a arte rara e, valha a verdade, aumenta a influência. Para completar a história, é o melhor marcador da equipa. Onde irá parar?


A generosidade de André Silva

Vive com problemas de crescimento numa equipa em crise de confiança

André Silva tem 21 anos e os pontas-de-lança, fenómenos à parte, só mais para a frente adquirem todos os elementos para serem precisos e regulares naquilo que lhes é pedido: golos. O portista já vive com almofada confortável de 7 tiros certeiros na Liga (11 jogos), mas precisa de moderar os ímpetos: correr menos e racionalizar a luta. A frieza necessária ao último toque é e sempre foi inimiga da generosidade.


CR7 e os tiros dos medíocres

De mansinho, já é o líder dos melhores marcadores da liga espanhola

Ronaldo estava a fazer uma época horrível, tinha perdido o compromisso com o Real Madrid, deixado de fazer golos e, quase certo, dava os primeiros sinais da veterania que os 31 anos anunciam. Os críticos rejubilavam. Prova de que tudo o que vale para explicar a vida de gente normal não serve para extraterrestres, em duas semanas pôs tudo no lugar: os tiros dos medíocres não o atingem. Que alívio.





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